Valério Mesquita

O meu confrade do IHGRN procurador Odúlio Botelho foi amigo particular do mestre João Medeiros Filho, inesquecível criminalista que encantou a muitos pela sua cultura jurídica e humanística. Odúlio é detentor de inúmeros causos. Dessa convivência, repassou-me anotações de fatos verídicos que testemunham a verve admirável do saudoso jurista.

01) O governador Ivan Bichara, da Paraíba, acabara de chegar ao Ducal Palace Hotel onde participaria de um encontro regional. João Medeiros Filho que se encontrava no bar do hotel, ingerindo a sua dose dupla, indagou ao jornalista João Batista Machado se o recém chegado era mesmo o governador Bichara. Machadinho além de confirmar a pergunta, comprometeu-se a levá-lo a presença do ilustre paraibano para a troca de cordiais abraços. O irônico causídico agradeceu a gentileza de Machado, concluindo: “Deixa pra lá, amigo velho, essa amizade já prescreveu…”.

02) Ao receber a visita na sua aprazível casa na praia da Redinha, ouviu do amigo juiz vários elogios à casa, à valiosa biblioteca e ao bom uísque que fora servido. Na despedida o visitante ficou deslumbrado com as rosas e flores desabrochando em amplos canteiros e nas alamedas. O visitante, contudo, não resistiu a forte presença do verde naquela área, exclamando: “Doutor João Medeiros, esse seu quintal é muito bonito…”. O dono da casa, embora vaidoso, corrigiu de pronto: “Quintal é atrás da casa. Na frente se denomina jardim”. Nada mais disse, nem foi perguntado. O magistrado aprendeu a lição, certamente, do grande causídico. E nada mais ousou perguntar.

03) Em um julgamento do tribunal do júri popular, João Medeiros ao fazer a defesa do réu, seu constituinte, dirigindo-se aos jurados argumentou ao iniciar o seu trabalho: “Este promotor de justiça parece até um promotor do Irã. Passou três horas utilizando-se de bombas “molotov” à exemplo dos guerrilheiros daquela região. Para ele a aplicação da pena de morte, neste caso, seria apenas um atenuante…”. Risos difusos e profusos.

04) Certa vez, um prefeito municipal, seu antigo cliente, que gostava muito de perguntar, ao percorrer a vasta biblioteca do escritório não resistiu e indagou entre altos brados: “Mestre, quantos livros!… Será que o senhor já leu todos eles?”. E ai veio a fulminante resposta: “Se eu os tivesse lido, no mínimo já estaria no hospital dos alienados. Totalmente doido. O advogado não tem obrigação de ler todos os livros, apenas faz consultas, conforme o delito praticado”. O cliente emudeceu e deu no pé.

05) Quando viajou à comarca de Lajes para uma audiência com o juiz-poeta Luis Carlos Guimarães, foi apresentado a uma senhora que o aguardava, ansiosamente: “Doutor João Medeiros esta senhora é a viúva da vítima”. Após os cumprimentos de praxe, João Medeiros dirigindo-se ao juiz de forma humorada, não sustentou a sua verve: “Doutor juiz, viúva é ótimo!”…

06) Ao participar da apuração de uma eleição no interior do estado, dirigindo-se ao juiz eleitoral, vociferou: “Doutor juiz, pela ordem, eu impugno esta urna”. E o magistrado, surpreso, indagou: “Por que o senhor “impuguina” a urna?”.  Resposta do advogado: “Eu não “impuguino”, eu impugno”. Ficaram intrigados até a morte.

07) O escrivão Antonio Elias de França, além de experiente datilógrafo era admirador número um do velho criminalista. Em dado momento, ao planejarem uma estratégia para defesa de um constituinte, o datilógrafo querendo colaborar, estalou os dedos e propôs:”João Medeiros, quer uma dica?”. E a resposta foi fulminante: “Guarde as duas dicas para a loteria esportiva. Advogado não precisa de dicas, precisa de muito estudo e competência”.  Antonio, ao ouvi-lo, emudeceu e nunca mais arriscou outros palpites.

08) Em uma Natal boêmia dos anos cinquenta,  houve um desentendimento político-intelectual na confraria Cirne, entre o excêntrico jornalista Romildo Gurgel e João Medeiros Filho, após o consumo de algumas doses de uísque. Acirrados os ânimos houve troca de bofetões entre os contendores, tendo Romildo guardado os óculos de João Medeiros no bolso do seu paletó. No outro dia, o velho advogado sentindo sua falta, designou o seu filho João Medeiros Neto para ir buscá-lo na residência do inflamado jornalista. Atendido pela empregada doméstica da residência, em pouco tempo, o doutor Romildo os devolveu, sem nada comentar.

Valério MesquitaEscritor – Mesquita.Valério@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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