RECUERDOS –

Dizem que o chato de conversar com velho é que ele só se lembra do “antigamente”. Antigamente era assim, era assado, isso não se fazia, falta de educação, e por aí vai, ou ia. Eu, que já não sou um “broto”, acho ótimo de me lembrar do passado, do passado feliz, alegre, agradável, que não deve ser nunca esquecido. Os outros, lixo com eles.

E, nessas lembranças, recordar os amigos que já se foram é das melhores coisas. E, para quem teve a graça de fazer bons amigos, ainda melhor. No meu caso, estava pensando hoje, apesar de ser formado em Direito (1954), tinha, e ainda tenho alguns poucos amigos advogados. Por uma dessas coisas que a vida não explica, os meus grandes amigos, de convívio diuturno, foram todos da área de saúde, médicos e dentistas. E todos eles me deixaram grandes lembranças, pois a grande maioria já partiu.

 Tenho uma mania que adquiri há pouco tempo. Depois do café, puxo uma cadeira para perto da janela, outra para botar os pés em cima, e fico pelo menos meia hora tentando fazer “meditação”. Ficar livre dos pensamentos, coisa essencial, segundo os entendidos, mas nunca consegui. A cabeça não para e aí aproveito para me lembrar os amigos, de nossa convivência, dos fatos divertidos e, com uma saudade enorme, de falta que me fazem, que só é superada pela lembrança. Hoje, lembrei-me de um jantar oferecido por Eudes Moura.

Passou um tempo na França, outro na Inglaterra e, se já era sofisticado quando foi, voltou muito mais. E esse era um dos grandes motivos de nossa amizade – ficávamos sempre longe do lugar comum. Contou-me que resolveu fazer um jantar os amigos mais próximos, preparado por ele (era um bom chef) e concordei imediatamente. Não iria dizer os pratos e nem dar qualquer informação. E aí foi que achei bom.

Organizou o jantar e convidou os amigos mais chegados. Lembro-me de Getúlio Sales (um gozador emérito e inteligência fulgurante, que pediu farinha para botar no estrogonofe que Eudes havia feito), Solon (Solozinho) Galvão Filho, Araken Irere Pinto, Ernani Soares, Paulo Bittencourt, Paulo Coelho. Acho que eu era o único não médico.

Não precisa comentar. O jantar excelente, o vinho de primeira, e o papo imperdível. Ainda hoje me lembro do ambiente agradável e amigo, cordial, conversa boa e variada. Tudo com todos os requintes que Eudes sabia como ninguém preparar. E, lá para tantas anunciou. Deixei a surpresa para o final. Vocês vão tomar um licor que trouxe da França, nem abri ainda, esperando uma oportunidade dessas.

Vai a cozinha e volta com uma bandeja com copos de licores, uma cor verde bonita, cheirosos e recomendou: tomem devagar, degustando, pois tenho mais lá dentro. No final, mostro a garrafa. Entusiasmo geral, todos apreciamos e pedimos para repetir. Solicito, foi buscar a garrafa e, para surpresa de todos nós, era um desses xaropes conhecidos para tosse. Foi uma gozação geral, todos acharam ótimo, e até teve quem repetisse. Foi uma das minhas noites mais divertidas.

 

 

 

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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