QUEM FOI A NORDESTINA LEOLINDA DE FIGUEIREDO DALTRO? – Luiz Serra

QUEM FOI A NORDESTINA LEOLINDA DE FIGUEIREDO DALTRO? –

No fim do século XIX, a baiana Leolinda tornou-se pioneira da causa das mulheres, foi sertanista no tempo em que os índios eram dizimados. Após sua aventura na selva e nos sertões nordestinos, foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e Rondon, inspirado nela, fez a seguir a sua parte memorável.

Chamada pela mídia da época, de A mulher do diabo, por ser na virada do século uma senhora separada, questionadora da política e da Igreja, exigia de público o voto feminino, preocupava-se com a situação dos índios, que deveriam ser doutrinados e incorporados ao seio da sociedade. Disseminava esses ideais. A alternativa proposta por Leolinda Daltro era em favor da vida e da contribuição social do índio, e da manutenção – ainda que reduzida – das suas práticas culturais.

Traçou um ambicioso projeto de penetrar nos sertões e educar os índios às suas custas e providências. O projeto incomodou os dois pilares da elite brasileira à época: a Igreja e os proprietários de terra. O trabalho de Leolinda foi se tornando insustentável, mas a professora seguiu sua jornada até 1897, sendo exposta ao ridículo e ironizada em todas as cidades que passava. Precursora das discussões iniciais da questão indígena no Brasil, não ficou só no discurso: usou de seu corpo e recursos para pulverizar seu plano alternativo às ideias vigentes. No entanto, quando o Serviço de Proteção ao Índio foi criado (1910), bem depois de suas excursões pedagógicas pelo Brasil, Leolinda não foi convidada a integrá-lo.

Participou da fundação do Partido Republicano Feminino antes mesmo que as mulheres pudessem votar. Insistentemente, redigiu o pedido de alistamento eleitoral, que foi veementemente negado. Para pressionar o governo, fundou o partido. Junto da amiga e também ativista Orsina Fonseca, criou a Linha de Tiro Orsina Fonseca, no intuito de prover treinamento com armas de fogo para mulheres, inexistente à época. Em 1918 foi acusada por um leitor do Jornal do Brasil de estar “interessada na masculinização de seu adorável sexo”. Dado seu direito de resposta pelo jornal, ironizou-o de neurastênico e “Adão zangado”. Este, infelizmente, não foi o único desacato que Leolinda enfrentou.

Diziam que Leolinda não aguentaria a pressão dos poderosos. Essa foi toda a vida desta louvável brasileira. Declarou-se uma mulher feliz e plena ao saber, em 1932, três anos antes de sua morte, que o voto feminino estava instituído. Seu livro Da Catequese dos índios no Brasil – Notícias e documentos para a História relata sua luta pelos povos indígenas a partir de seus registros e anotações do Sertão.

Leolinda Daltro faleceu em acidente de carro, em 1935.

Nos anos seguintes à campanha educativa de Leolinda, o major Rondon (marechal Cândido Mariano da Silva Rondon ) deu continuidade à busca de acolhimento das numerosas tribos adjacentes ao Araguaia. Rondou participou da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas de Cuiabá ao Araguaia (1890-1898). A comissão, encarregada de construir 583 quilômetros de linhas de Cuiabá a Registro, na margem esquerda do rio Araguaia, passava pelo território dos índios Bororo que, vítimas de sucessivos massacres, se constituíam no principal obstáculo às comunicações entre Goiás e Mato Grosso. Nessa ocasião, Rondon efetuou suas primeiras ações junto ao grupo indígena, contatando os Bororo do rio Garças, com os quais manteve estreitos vínculos por toda a vida.

Rondon foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 1957. Nascido em Cuiabá em 1865, viveu por 92 anos.

Em 2013, o Estado do Rio de Janeiro instituiu o Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro, condecorando a cada ano dez mulheres de destaque na defesa dos direitos e da representação feminina.

 

Luiz SerraProfessor e escritor
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