QUANDO O RISCO DE POUCOS SE TRANSFORMA NO CUSTO DE TODOS – Raimundo Mendes Alves

QUANDO O RISCO DE POUCOS SE TRANSFORMA NO CUSTO DE TODOS –

Há momentos em que determinados episódios ultrapassam o campo técnico e passam a exigir uma leitura mais ampla, institucional e política. O caso envolvendo o Banco Master é um desses momentos. O que está em discussão não é apenas a atuação de uma instituição financeira específica, mas a forma como o Estado, o mercado e a sociedade se relacionam quando riscos privados passam a flertar com a proteção pública.

Ainda que eu não seja economista de formação, escrevo a partir de uma experiência concreta: anos de atuação como procurador na gestão pública, convivendo com limites orçamentários, decisões administrativas, números frios e seus efeitos reais sobre a vida das pessoas. A isso se soma um olhar estatístico e a leitura atenta dos noticiários e do debate que se formou nas redes sociais. E é dessa conjugação que surge a inquietação central: não estamos diante de um fato isolado, mas de um padrão institucional que se repete.

Quando operações financeiras revelam fragilidades regulatórias, tolerâncias excessivas ou tratamentos assimétricos, o impacto vai além do balanço de um banco. A mensagem transmitida é política: alguns riscos encontram abrigo institucional, enquanto outros são rigorosamente punidos. Em democracias que se pretendem estáveis, esse tipo de sinal é corrosivo.

O mercado reage a esses sinais com pragmatismo. Do ponto de vista estatístico, não há moralidade, há cálculo. Onde há insegurança, cobra-se mais. Onde há dúvida sobre regras e responsabilidades, o crédito encarece, os prazos encurtam e os investimentos recuam. O custo, como quase sempre ocorre, não fica restrito a quem tomou a decisão arriscada. Ele se espalha silenciosamente por toda a economia.

A experiência na gestão pública ensina uma lição dura, mas recorrente: decisões que protegem poucos, em nome de soluções imediatas, tendem a impor custos coletivos no médio e longo prazo. Quando o Estado assume, direta ou indiretamente, o papel de fiador de riscos privados, cria-se um incentivo perverso. O sistema aprende que o erro é tolerável, desde que seja grande o suficiente para não quebrar sozinho.

Esse mecanismo alimenta uma lógica conhecida: privatizam-se ganhos, socializam-se perdas. E, ao fazê-lo, corrói-se algo ainda mais valioso do que recursos financeiros, a confiança institucional. Sem confiança, não há política econômica consistente, não há estabilidade regulatória, não há crescimento sustentável.

Outro elemento que não pode ser ignorado é a insegurança jurídica. Regras instáveis, exceções recorrentes e decisões pouco transparentes enfraquecem o pacto institucional. A previsibilidade deixa de ser regra e passa a ser privilégio. E quando a previsibilidade se torna seletiva, o sistema inteiro perde legitimidade.

Nas redes sociais, o debate muitas vezes se reduz a slogans, acusações genéricas ou disputas ideológicas estéreis. Isso não ajuda. O que está em jogo não é um nome, um banco ou um episódio específico. O que está em jogo é o modelo de decisões que o país aceita normalizar.

A pergunta que se impõe é política, no sentido mais nobre do termo: quem paga a conta quando o risco se materializa? Se a resposta continuar sendo “todos”, enquanto os benefícios permanecem concentrados, o ciclo se repetirá. E cada repetição cobra seu preço em juros mais altos, crédito mais caro e desconfiança generalizada.

Economia não se sustenta apenas em discursos.
Ela se constrói com instituições responsáveis, incentivos corretos e escolhas públicas que respeitem o interesse coletivo.

 

 

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, Procurador aposentado e Vereador em São Gonçalo do Amarante-RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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