Dalton Mello de Andrade

Dizem que preguiça e mentira são pecados venais. Aprendi isso no catecismo, que fiz aí pelos oito, dez anos. Hoje, nem sei se ainda existe catecismo nas igrejas. Ajudou na minha formação. Mas também aprendi que esses são pecados que qualquer padre resolve com dois Padre-Nossos e uma Salve Rainha.

Também já li, em algum lugar, um psicólogo afirmando que nesse mundo todo mundo mente. Uns mais, outro menos. Alguns com mentiras cabeludas, dessas que prejudicam as pessoas. Outros, felizmente a grande maioria, com mentirinhas mixurucas que não prejudicam ninguém. Pelo contrario, muitas vezes salva o mentiroso, ou alguém por quem ele está mentindo, de situações vexatórias. Um amigo, já falecido (como têm morrido os meus amigos!), dizia que uma mentira pequena pode ser benfazeja. Concordei com ele. Quebra galhos imensos e não prejudica ninguém. Pode até salvar um lar.

A preguiça também raramente prejudica alguém. Como é gostoso você acordar mas não se levantar. Ligar a TV ou pegar um livro ou jornal e ficar até a hora que Deus quiser, rolando na cama de um lado para o outro. Sem se lembrar das obrigações do dia, ou complicações da vida. Quem já não fez isso atire a primeira pedra. Confesso, eu sou desses caras chatos – existem – que não consegue fazer isso. Fico só na inveja. Já amanheço o dia procurando ou inventando o que fazer. Escrevendo essas maluquices, que alguns gostam e eu fico feliz quando isso ocorre. Ou lendo as notícias – as mesmas, crimes sem castigo, político sem moral, governo incompetente (em todos os níveis) – procurando, como diz o ditado, que repito mesmo que achem lugar comum – procurando sarna para me coçar.

Um poeta de Ceará Mirim, Juvenal Antunes, escreveu “Elogio à Preguiça”, das coisas mais gostosas de se ler. Não o conheci pessoalmente, mas conhecia de perto sua irmã, D. Madalena, escritora, ele tio, ela avó, de meu cunhado Ferdinando Couto e meu amigo Roberto Varela (ambos falecidos). O poema é muito bem feito, conta uma aventura amorosa que não se consumou em razão da preguiça. O poema é comprido e vou reproduzir aqui um pedacinho, para encher d’água a boca de vocês.

Começa com “Benditas seja tu, Preguiça amada, que não consegues que eu me ocupe em nada!/Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras/Hei de dizer, em versos, quatro asneiras”. Termina, depois de descrever as várias coisas que deixou de fazer por conta da preguiça, com um pedido de desculpas à amada Laura, explicando por que não pulara o muro para vê-la. “Ó Laura, tu te queixas que, farsista/Ontem faltei, à hora da entrevista/E, que ingrato, volúvel e traidor/Troquei o teu amor – por outro amor/Ou que, receando a fúria marital/Não quis pular o muro do quintal./Que não faças mais essa injustiça!/Se ontem não fui te ver – foi por preguiça./Mas, Juvenal, estás a trabalhar!

Nada melhor para aumentar a preguiça e aproveitar o dia de lendo coisas como essa. Divirtam-se, como eu me diverti. Claro, os que lerem até o fim.

Dalton Mello de AndradeEx secretario de Educação do RN

Ponto de Vista

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