PONTO DE VISTA DE ALFREDO BERTINI

 

ENTRE PEDRAS E FLORES, A VIDA É SOBERBA –

Tomo como lição uma entre tantas assertivas do genial Chaplin. Lutar com determinação, abraçar a vida com paixão, por entender que o mundo pertence a quem se atreve e que a vida é muito para ser encarada como insignificante. Eis a grandeza do pensar do gênio.

O transcorrer deste ano de dissabores parece não ter sido fácil para ninguém. No meu caso, as dores e lições da multicrise, aliadas a outras inconstâncias, trouxeram-me reflexões e momentos de introspecção. Diante da adversidade é normal que se absorvam questionamentos, dúvidas e falhas. Mas, ao se fazer uma varredura interior, o melhor esforço é extrair aprendizados. Na aparência dos percalços, há sempre como buscar a renovação da fé e esperança. Afinal, na caminhada diária, vale tentar a troca de pedras por flores, como aconselhavam as sábias palavras de Cora Coralina.

Sou o resultado diário de uma luta quase sexagenária. Muitas vitórias, claro. Todas dignas de compartilhamentos materiais e imateriais. Mas, como nem tudo são as “flores de Cora”, as “pedras de Drumond” são também reais. Nos meus momentos de recolhimento, dei a elas as melhores considerações: respeito e entendimento. Até pelas razões dos reveses.

Nesta vida superei barreiras. Fui fruto resiliente da última tentativa de gravidez da minha mãe. Enfrentei os contrastes sociais de quem poderia ser “rico” onde morava e “pobre” onde estudava. Encarei discriminações pela minha origem nordestina, sobretudo, onde isso seria inimaginável – o ambiente acadêmico. Senti na pele o que é conviver diariamente com o temor de uma doença, nas figuradas amadas de mãe e esposa. Enfrentei a dor de ver meu pai tombado e sem vida nos meus braços. Nesses instantes difíceis encontrei forças na superação. Como canta Lulu Santos, é entender que “a vida é mesmo assim. Dia e noite. Não e sim”.

E, nessa mesma canção, Lulu diz que “somos feitos de medos e desejos”. Pois justamente nos contrastes da vida, é preciso se fazerem maiores os desejos pela superação dos medos. Essa é a principal arma para que as batalhas sejam vencidas.

E assim, que se renove Chaplin a cada dia, pois, de fato, “a vida é muito para ser insignificante”.

 

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Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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