De volta ao tema da barbárie, pelos ajustes de uma política social –
No caderno de opinião desta Folha, escrevi dias atrás sobre o triste momento nacional do apogeu da desumanidade e a barbárie da fome. Jorge Cravo, um fiel leitor de Brasília que me honra com seus comentários, dessa vez “cravejou” uma discreta reação crítica, embora respeitosa e muito oportuna para mim. Chamou-me a atenção em dois pontos. Primeiro, pelo risco de generalizar duas opiniões, em tempos de rude monitoramento de expressões, que cabem melhores nas suas especificidades. Depois, em duas breves sugestões que têm seus vieses políticos, mas que oferecem a oportunidade de ampliar meu comentário, face à importância e atualidade do tema.
No plano inicial, vale destacar que tenho recorrido à literatura, mormente ao realismo machadiano, como meio de interpretação de velhos fenômenos sociais brasileiros. E faço isso como mero recurso de retórica, para tornar menos árido um texto econômico, que também se destina a leigos ou pouco interessados pelos excessos da linguagem e da métrica, tão comuns às demais análises. Só que dessa vez, fui mais no âmago da questão social, ao trazer para uma observação comparativa o clássico “Vidas Secas” de Graciliano. Um texto que, de tão real, pode ser sentido com o mesmo traço rude, pois o autor foi capaz de trazer à solitude da sua pena o mesmo clima árido e soturno da seca nordestina.
Enfim, com base nesses preceitos gerais, ao extrair de Fabiano à cadela Baleia o drama da sobrevivência comum, num ambiente de miséria e fome, foquei-me no universo particular de uma geografia inóspita e na interseção de homem e animal. Claro que o drama da estiagem sempre foi pontual no contexto da região nordestina, de modo que dele não se deve exprimir uma realidade única. A heterogeneidade representa uma marca a ser considerada e dela se mostra um conhecimento regional tão diverso, plural e contrastante, que se exige do cronista esse nível de atenção. Nada diferente na análise, quando se põe numa igualdade de comportamento homens e bichos, mesmo que a título de revelar o conflito da subsistência. Claro que a ideia analítica desse sentido, jamais teve a intenção de expor alguma espécie de selvageria. Assim como, o exemplo real que usei, naquele triste registro dos anos 90 entre o homem e o gabiru, que também foi por mim lembrado. Serviu-me apenas como uma ênfase dos limites da subsistência, sem apelos por comoção. Em suma, as condições da extrema pobreza e daí a derivação para a fome foram a intenção do texto.
A outra observação pertinente, que me fez aqui associá-la a dois vieses políticos, é tão cabível que me permite extrapolar, em cima daquela minha opinião original. É verdadeira a percepção de cunho histórico de um gosto populista, que há por trás do discurso social da política tida como tradicional. Parece-me, assim, que foi mal usado o objeto da “filosofia rousseauniana” do “doce sentimento da existência”. Afinal, parece- me que muitos protagonistas políticos não apenas negam romper com uma cultura secular de negligência com a causa social, no sentido de melhorar o padrão de distribuição da renda. O apego por iniciativas efêmeras que nada transformam, é o que forja essa identidade cultural conformada, de se achar que somente uma simples assistência muda a realidade. Esta, retratada nos séculos de Machado e Graciliano, mas que hoje volta à cena nacional, em pleno tempo de prevalência da revolução da informação e do conhecimento.
O outro aspecto político dessa observação final do leitor, também me traz a oportunidade de mostrar o quanto, em situações de comprometimento da economia, uma política social mais efetiva tem maior capacidade de sustentação. E que depende, especialmente, das variáveis que compõem a política econômica ditada pelo governo federal. Nesse sentido, a cota de responsabilidade dos governos estaduais e municipais é bem menor. Afinal, os efeitos das estratégias que vão além do ambiente comum do lado fiscal, como as políticas cambial e monetária, estão correlacionados com a esfera federal. Somem-se a isso as distintas particularidades que ocorrem em mercados de trabalho heterogêneos, em larga medida, bem mais afetados pelo ritmo das políticas federais.
Estes assuntos finais, que traduzem o peso da política econômica oriunda da esplanada dos ministérios, são importantes para o ajuste da análise sobre a efetividade de uma política social. Como dizia Saramago, “essa é a responsabilidade de se ter olhos quando os outros perderam”. Ou se fizeram de cegos, na transigência ou na negligência para enfrentarem a pobreza.
Alfredo Bertini – Economista e colunista da Folha de Pernambuco
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