PONTO DE VISTA DE ALFREDO BERTINI

 

A Realidade em 3 T: Tristes Tempos Tenebrosos –

Cada vez que me acordo, faço algum exercício mental para continuar na minha crença esperançosa de que o mundo há de melhorar. Isso porque, nos dias de hoje, a gente tem dormido sob os auspícios do inacreditável. De certo modo, tudo que se imaginava como fora de propósitos para o bem geral, parece ter tomado conta do cotidiano. Nessa circunstância adversa, embalo meu sono com o barbante dos horrores. No entanto, esforço-me para acordar com a convicção de desatar o nó dessa “embalagem” e dela extrair boas novas.

Tal exercício é válido e merece ser praticado, mas tenho a sensação que o mundo hoje sobrevive num conflito de posições extremas, que faz por repetir tantas atitudes inconsequentes. Em pleno século XXI do mundo ao alcance das mãos, muitos pares como párias, deliciam-se com posturas agressivas e discricionárias. Tudo converge para práticas de uma suposta “guerra cultural”, na qual supremacismos e negacionismos são os reais nutrientes de uma ideologia de ódio e extermínio.

Uma das maiores vítimas dessa ausência de discernimento (e até de educação), enquanto respeito ao contraditório, tem sido a cultura, nas suas mais variadas manifestações. Acontece que a exacerbação do velho maniqueísmo ideológico, sempre pôs em linha de confronto as posturas mais alinhadas aos extremos políticos. A práxis, por maior que seja a distância entre essas linhas de pensamento, sempre foi de uma convivência conflituosa, embora respeitosa. Contudo, o que se pode extrair desse caldo, ultimamente, é a prevalência do ódio. Não só expresso pelo modo de uma incontinência digital, que contamina esses conflitos no mundo virtual. Como tem ocorrido, também, uma violência no mundo real, retratada por atos covardes de vandalismo. Para este último caso, cabem dois exemplos recentes.

O primeiro deles já rendeu um belo artigo de Ruy Castro que, em cima do episódio, mostrou o conflito atual por um leitura própria entre rudes e sensíveis. O fato que mereceu evidência se deu com um desses músicos presentes nas ruas das grandes metrópoles. Esses cidadãos fazem da arte seu ofício e costumam entreter pedestres agitados pelas pressões cotidianas. Apesar de tocar um imponente violoncelo, instrumento tão sensível quanto às melodias que dele podem ser extraídas, o músico foi alvo de “arremesso de ovos”. Como bem disse Castro no seu texto, por mais modesta que fosse a arte exercida pelo músico, como se pode agredir com tamanha rudeza quem está nas ruas por necessidade e lá exerce uma missão de sensibilizar?

O outro fato, não menos aviltante, foi representado pelo vandalismo exercido sobre uma pintura de Luís Fernando Veríssimo. A obra estava exposta num logradouro público de Porto Alegre e compunha uma exposição de artes plásticas de um evento que ocorre naquela cidade. O danado foi que o ato de vandalismo se deu pela segunda vez em curto espaço de tempo, de modo que essa repetição parece mesmo configurar aquele ódio ou desejo de extermínio a que me referi antes. Mais uma prova cabal de ausência de atributos como educação, conhecimento cultural, valorização artística, humanismo e sensibilidade.

O negacionismo extensivo à cultura é algo que me tira o sono, sobretudo, nesse mundo de obscurantismo tão latente. Até que respeito quem faz da “desnutrição cultural” uma opção de vida. Ou mesmo, os insensíveis que não se emocionam, não se arrepiam e nem choram com música, teatro, cinema, dança, circo ou quaisquer outras manifestações artísticas. Mas, ir além disso, através do desrespeito e da violência é puro troglodismo. É irracional.

Como digo no título, alguns deixaram de lado uma vida cultural, que pode ser vista em até 3 D, para viver feito amebas num ambiente 3 T: tristes tempos tenebrosos.

Uma realidade que o artista e seu público fiel jamais imaginaria vivenciar, em pleno século XXI. Inacreditável.

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista e colunista da Folha de Pernambuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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