PONTO DE VISTA DE ALFREDO BERTINI

Sem gestão, sem mercado e sem cofre, o posto vira ficção realista –

Como tenho-me inspirado em obras do realismo que marcaram a literatura brasileira, bem retratadas por Machado lá no século XIX, posso aqui recorrer a tal expediente para ilustrar a encenação política que permeia o histórico de todas debandadas da equipe econômica. O triângulo amoroso descrito no clássico “Dom Casmurro”, por exemplo, pode ser uma iniciativa defensável.

Na referida obra, o jogo de uma misteriosa traição que pairava no ar, estava representado pelos protaganismos exercidos por Bentinho, Capitu e Escobar. A desconfiança ficou como a essência da trama, sem rupturas traumáticas, mesmo que o casal Bentinho/Capitu tivesse tardiamente o filho desejado, fosse ele a cara de Escobar e ainda carregasse para sempre o prenome do amigo traidor (Ezequiel).

Na que concerne aos sinais atuais de crise, emitidos pela economia brasileira e que servem ao interesse desta análise, o protagonismo triangular está entre a política econômica, o presidente e o ministro. Por trás, a mesma trama de desconfiança sobre traições. A do presidente pode ser vista com base no que disse em campanha, a respeito de certos princípios do pensamento liberal e contra o “toma lá, dá cá”, enquanto exercício político inadequado, por ignorar os limites do orçamento. Por sua vez, tem-se em conta um ministro que traiu seus ideais e os da sua equipe, rendido que ficou aos encantos das postulações eleitorais do chefe e dos aliados. Restou à “traída” política econômica se sustentar numa outra aposta, que poderá trazer de volta um quadro recessivo e inflacionário mais duradouro do que o projetado. Que o digam os mercados em polvorosa e as incertezas que pairam nos círculos financeiros da “Faria Lima”.

De fato, a semana passada foi um primor de manifestações e reações públicas desencontradas, cujo quadro resultante deixou qualquer amador em conhecimento de economia ou finanças, de “cabelo em pé”. A questão principal, entre outras tantas que afligem as contas públicas, não estava na oportunidade e na justiça de se estabelecer um programa social de transferência de renda. A  sutileza decorreu do risco de uma decisão política, que atropelou os princípios vitais de uma gestão econômica, bem impactada pelo desequilíbrio fiscal.

Já que não houve competência para se avançar nas reformas e nem muito menos formular uma política social consistente (e não efêmera), na inevitabilidade de se restaurar o programa de renda mínima, que fossem apontadas as despesas suscetíveis aos cortes. E essas existiam, sem que o orçamento fosse ostensivamente “furado”. Afinal, não há nada mais contundente para um técnico, que assistir calado às imposições que ferem seu simples ofício de planejar.

Ademais, ao ver seu chefe direto sucumbir diante do populismo, com forte conotação eleitoral, caberia aos membros da equipe e responsáveis diretos pelos controles, um gesto de debandada. Foi o que ocorreu. E de um modo tão esperado quanto à certeza que restou para a sociedade, do quanto o ministro ficou fragilizado. A coletiva com o intuito de “acalmar” os agentes econômicos, agora mais do que acostumados com as turbulências que emanam do poder executivo maior, deixou transparente uma encenação. Igual àquelas ficções de um realismo pautado por desconfianças e traições.

Diante da coletiva armada, minha sensação foi semelhante ao que o mundo se acostumou a ver no futebol. Quando na crise os dirigentes vêm a público dizer que o treinador se encontra “prestigiado”, essa é a senha para afirmar que na próxima rodada o risco do “desprestígio” será grande. Basta perder o jogo e aquela cena deixa de ser peça de ficção e vira realidade. Parcebo que na política, o que importa é seguir o jogo, com a insistência nos erros e olhos vendados para as adversidades geradas. Mesmo sob o risco de perder o campeonato e até ser rebaixado. Afinal, treinador e auxiliares são seres descartáveis. E aquela demonstração anterior de prestígio serviu como mero blefe. Qualquer semelhança não será mera coincidência.

A realidade é que aquele “posto” com solução para tudo perdeu a gestão, o mercado e o cofre. E enquanto lhe dão guarida com os generosos aumentos nos preços da gasolina, não faltam incendiários para destruí-lo no menor descuido. Enfim, segue o jogo.

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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