PIOR É NA GUERRA –

Quem foi jovem na década de 60 lembra do ditado “Pior é na guerra, que a gente morre e não se enterra”. Correlacionava-se o enunciado a uma situação dramática semelhante às vistas nas guerras, onde combatentes ficavam insepultos e esquecidos diante da agressividade e estragos causados nas batalhas.

Na cultura ocidental, não existe algo pior de ocorrer que o impedimento de velar mortos. Acontece de o pior estar acontecendo, aqui e agora, com a epidemia da Covid-19. A dor do luto sem despedida tem mexido com a saúde emocional de muita gente.

A mortandade elevada de vítimas do novo coronavírus começou na região de Piemonte, na Itália. Lá, os mortos deixaram de ser velados pelo risco iminente de contágio. Com os necrotérios dos hospitais lotados, corpos de italianos foram acomodados em containers refrigerados, em pistas de patinação de gelo e em salões de igrejas, aguardando o sepultamento.

Até esse ponto era uma circunstância. O pior viria com a proibição de velar o corpo, reverenciar o morto, prestar a última homenagem ao ente querido. De quem, sequer, deu-se o direito à proximidade do ataúde por conta da contaminação.

Tal qual numa guerra, essa tradição está sendo violada de forma sistemática nesta pandemia. O ato de observar e reverenciar o cadáver na cerimônia do velório é a certeza de que a pessoa nos deixou. A verdadeira despedida. Omitir esse ritual agrava a dor da perda podendo o pesar se traduzir em diferentes manifestações de doenças psicológicas nas pessoas.

Segundo o psicanalista e professor paulista, Christian Dunker: “Quando a gente tem numa família um corpo que é perdido, um velório que não é feito, uma despedida que não se realiza, ali, naquele espaço do irrealizável, muita coisa pode ser introduzida em um plano traumático. Em tese, é muito ruim quando a gente não tem esse momento da despedida e da experiência do corpo como morto”.

Ainda, segundo Dunker: “Sem rituais de despedida e luto, altera-se não só o cotidiano, mas a cadeia da qual fazemos parte. É isso que define a catástrofe”; e complementa, comparando os efeitos da pandemia com os decorrentes da guerra: “A guerra é um paradigma para a catástrofe, porque ela produz exatamente essa vala comum, essa impossibilidade de distinguir e valorizar cada vida, que é insubstituível”.

Manifestações dolorosas do tipo, acontecem no nosso cotidiano de vítimas do novo coronavírus. Basta atentarmos para as lamentações de parentes impedidos de se achegarem do esquife, num sepultamento: “Não me deixaram vê-lo. Não restou sequer uma fotografia para lembrarmos dele! E por aí vão as protestações no formato de rosários de lamúrias.

Em Natal, um fato bem que caracterizou esse tipo de revolta. Família proibida de ver o parente durante a internação e depois da morte, considerou um desacato ao falecido que o condutor do rabecão, no trajeto hospital-cemitério, estivesse protegido com o uniforme padronizado. Insistiam pela vestimenta tradicional. Gastou-se muita saliva para persuadi-los a acatar a exigência da vigilância sanitária.

O fato é que o impedimento a familiares de velarem seus mortos causam marcas psicológicas profundas difíceis de extirpar. Portanto, qual o pior dano para a psique: morrer sem enterrar ou enterrar sem velar? É mais um tema a abordar.

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro e Escritor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

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  • Maldito vírus.

    Muito triste mesmo o isolamento que obriga as pessoas próximas da vítima a não poder ter uma despedida, na forma tradicional, de seu ente querido, sob pena de também ser acometidas da mesma doença.

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