PINHEIROS – Bárbara Seabra

PINHEIROS –

Vejo os filmes de Natal cheios de pinheiros enormes, lindamente decorados, iluminados e encantados. Eles são realmente graciosos. Porém, já pararam para olhar os cajueiros, mangueiras e jambeiros espalhados pela nossa cidade Natal? Estão carregadinhos de frutas, fazendo um esforço enorme para sustentá-las em seus galhos até amadurecerem.

Sei que é uma briga insana que fazemos com pássaros e saguis. Geralmente eles chegam primeiro nas frutas. Mas, como brigar com a natureza defendendo a própria natureza? Sempre sairemos perdendo…

Enquanto levo nosso caçula para sua aula vejo mangueiras pequeninas totalmente carregadas. Lembro de minha vó Malbita dizendo que as melhores mangas são as dos cemitérios. Não estou preparada para essa discussão. Isso me faz recordar minha infância, saindo de mãos dadas com ela para comprar pinha. Pinha sempre foi um ponto fraco meu. Fruta linda, saborosa, delicada, cheia de vida. Papai quando viaja para o interior às vezes me surpreende com um “Venha buscar pinha!” e volto com aquele tesouro delicado pronto para devorá-lo enquanto não amadurece por completo.

Lembro também das jabuticabeiras do sítio de meus avós paternos. Carregadas! Papai fazendo competição entre os sobrinhos de quem colocava mais jabuticabas na boca. Aquele doce enigmático quando quebramos uma casca delicada e resistente. Ah, jabuticaba, como te amo…

Os jambos eu não dava grande valor. Tínhamos um jambeiro enorme em nossa casa, o qual sujava o chão de rosa pelas flores e pelos frutos caídos. Hoje, quando vejo um jambeiro, sinto cheiro de infância.

Ao morarmos em Bauru, a cidade se tornou sinônimo de morangos. Tinha um caminhão na esquina que vendia caixinhas e todos os dias eu comprava uma ao voltar para casa. Comia com açúcar, chocolate, creme de leite, leite condensado, puro… E quando acabava já esperava ansiosa o dia seguinte para uma reposição.

Na faculdade tomamos café sempre – ou quase sempre – juntas. Somos três. Uma louca por caju. Outra que se dispõe a pegar cajus para a primeira. Eu fico olhando aquele sinal de amor representado por um “Esse está lindo! Pega”. E ela pega! Lá tem uma quantidade louca de cajueiros. Enquanto conversamos sob eles percebemos como somos corajosas. De repente, entre um “não acredito” ou “então, ela falou” cai um caju. Quase dando nódoa nas nossas roupas. Não importa. O cheiro é incrível. A natureza é incrível!

Mas, a tal da manga… Ela tem para mim um valor especial. Foi a primeira prova de amor que recebi de Flavinho. Começo de namoro e pergunto se ele quer manga. Ele recusa. Eu apareço com uma bacia de manga espada. Ele pergunta para que tantas.

– Oxe! Para mim!

Manga não se come no singular. Ela vem no plural. Três, cinco, não importa. Mas, nunca uma!

Comecei a devorar as mangas enquanto conversávamos e só finalizei quando chegou ao fim (não é trocadilho!). Ele não se assustou com meu rosto e mãos pintados de amarelo. Depois entendi o motivo. Vovó Cici, sua avó e minha por adoção, trocava qualquer refeição por manga. Manga para ele talvez fosse sinal de acolhimento, sensação de família.

Sem imaginar, peguei meu marido pelo estômago. Não o dele! O meu, cheio de manga. Nada mais romântico…

Então, não troco minhas mangueiras, cajueiros e jambeiros por nenhum pinheiro. Nossa decoração é linda demais e muda ao desejo dos pássaros e saguis, como também dos transeuntes carregados de sacolas plásticas, olhando para cima, vendo qual fruta conseguem alcançar com as mãos. Ou apenas a decoração é para nos recordar que a simplicidade tem um valor essencial, com cheiros de infância e sabores de alegria.

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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