PINHEIRO: BAIRRO ASSOMBRANTE – Alberto Rostand Lanverly

PINHEIRO: BAIRRO ASSOMBRANTE –

Outro dia resolvi percorrer as artérias do bairro Pinheiro, na expectativa de vivenciar o que a imprensa expõe em suas manchetes, confesso fiquei impactado com a realidade similar à um pós guerra do local, pois em cada recanto subiam muros de falência.

Vem-me à mente quando ainda bem jovem, pedalando minha Monark lá chegava, para passear em ruas tranquilas, sentindo-me em pedaço da Áustria, que havia conhecido ao assistir o inesquecível filme Noviça Rebelde, transplantado para Maceió. Verdadeira Ilha de praças, jardins e muito verde, cercadas por residências de estilos variados. Até seus moradores externavam semblante diferente, sempre tranquilo.

Recordo certa vez ao chegar na Praça Arnon de Mello, ao encostar a bike, atentei determinada senhora, sentada em um dos seus bancos, usando faixa preta que prendia seus cabelos também negros, escrevendo a mão, com caligrafia caprichada texto que parecia um poema. Questionando-a respondeu que apesar de não residir na comunidade, lá comparecia para fortalecer sua inspiração. Eu a conhecia como amiga de minha tia Helionia Ceres, tratava-se da imortal Anilda Leão.

Voltando a realidade, olhei para um lado e outro, senti forte odor (ou mau cheiro) a me recepcionar, alguns imóveis quase que centenários, que já haviam vivenciado dias melhores, pareciam tristes por suas visíveis decadências. Mais adiante, em varanda tomada por mato, vi uma banheira e dentro dela, portão de ferro enferrujado, que parecia banhar-se em água amarelada lá represada.

Em outra rua, alguns homens, vestindo roupas sujas, suspensos em escada metálica encostada no tronco de centenária árvore, estupravam seu corpo, e a medida em que aumentava o ruido da serra elétrica por eles usada, galhos decepados friamente, vinham abaixo como se estivessem sendo esquartejados, caindo no solo onde outrora aproveitando sua sombra, crianças sob o pacifico olhar dos pais, brincaram as mais angelicais diversões.

Tantos retratos de negligência, para mim desnudavam a ganancia de muitos, que ao longo de décadas, exclusivamente buscando suas próprias riquezas, fechando os olhos para a realidade, seguiram retirando salgema do subsolo da região, sem avaliar tecnicamente as consequências, conseguindo ali enterrar nobres sentimentos de milhares de famílias, como sonhos, amor e respeito ao próximo, elementos que deveriam ser eternos, mas que para eles pouco importam.

Confesso, haver ficado impressionado com o constatado e ao mesmo tempo, como que quicando na mente, lembrei de outras casas abandonadas que embalaram a minha imaginação: O Assassino de Psicose, a Bruxa de Blair e até a família Adams. O Pinheiro, pela maldade humana, extrapola tais horizontes, pois pode ser considerado um bairro assombrante, mas que já foi iluminado.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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