PERDIDOS NO MERCADO –

Um dos principais programas turísticos em Istambul é a visita aos seus mercados cobertos. Esses bazares – é assim que normalmente eles são chamados em nossa língua –, que variam bastante em tamanho, são formados por algumas ou muitíssimas ruas cobertas, apinhadas, de lado a lado, de um sem número de lojas. Ali mesmo, em Sultanahmet, onde andamos flanando na crônica da semana passada, estivemos em um, o Arasta Bazar, que, embora pequenino, é bem agradável.

Outro excelentemente bazar de Istambul que conhecemos, certamente um dos mais famosos para o turista, é o Bazar Egípcio ou das Especiarias (“Misir Çarsisi”), edificado, originalmente, entre os anos de 1663 e 1664, como parte do complexo da chamada Mesquita Nova (outra atração de Istambul que merece ser visitada). Boa hparte do dinheiro para a sua edificação veio do comércio de produtos do Egito, o que, certamente, explica o seu nome. O prédio pegou fogo algumas vezes, mas foi reconstruído e reinaugurado outras tantas (em 1691, 1940 e 1994, segundo li), o que não me espanta de forma alguma. Por lá se vendem ervas e especiarias, claro. Mas eu testemunhei um comércio muito mais diversificado: variedades de carne, frutas frescas e cristalizadas, mel, doces (sobretudo as “delícias turcas”) e mil e uma outras guloseimas. Roupas e utensílios domésticos também vi em profusão. Do lado de fora, vi até animais de estimação, o que, para mim, é sempre motivo de distração. No mais, em formato de L, o Bazar das Especiarias é, estruturalmente, muito bonito. As belas entradas e o teto de pedra trabalhado chamam, de logo, a nossa atenção. Só não gostei da ostensividade da segurança. Homens fortemente armados e detector de metais em todas as entradas me deixaram um pouco apreensivo. Mas faz parte.

Mais antigo e badalado ainda (que o Bazar Egípcio) é o denominado Grande Bazar de Istambul (“Capali Çarsi”). Antes de mais nada, o apelido “grande” é pequeno para definir as suas proporções e a sua dinâmica própria. Formado por várias sessões que se acumulam ao derredor da sua parte mais interior e antiga (chamada “Iç Bedesten”), ele é muito mais do que grande. Na verdade, como explica o “Guia Visual Folha de São Paulo – Turquia” (PubliFolha, 2014), o Grande Bazar “é uma revelação. Trata-se de um labirinto de ruelas cobertas por abóbadas pintadas e ladeadas por milhares de lojas. As mercadorias avançam pela calçada para conquistar compradores e os lojistas fazem de tudo para vender. O bazar foi criado por Mehmet II, logo depois de conquistar a cidade em 1453. Ele dispõe de diversas entradas, e as duas mais práticas são a da Porta Çarsikapi (da parada de bonde Beyazit) e a da Porta Nuruosmaniye (da Mesquita de Nuruosmaniye). Apesar das placas, é fácil se perder no bazar. Muitas das mercadorias do bazar são fabricadas em oficinas escondidas por trás das lojas”. Para proporcionar um mínimo conforto à multidão de todos os dias, lá tem de quase tudo: restaurantes, cafés, agências bancárias, correios, salão de beleza, toaletes e locais para banho, posto policial e por aí vai. É uma babel de cores e sons onde se vende de tudo. Tudo mesmo. E muito barato, se comparado com os preços aqui no Brasil. Basta pechinchar, o que é quase uma obrigação por ali. Logo apartados da nossa excursão – afinal, andar com um grupo de jovens senhoras nesse labirinto de lojas seria pior que excursionar no Inferno de Dante –, nós compramos algumas bugigangas (xícaras, bolsinhas, lenços, já nem me lembro mais), entre elas uma cafeteira turca que, por estes dias, tem feito a minha vigília mental prazeirosamente aumentar (e a minha pressão arterial também, infelizmente).

Ademais, para quem não sabe, Istambul tem até um Bazar dos Livros (“Sahaflar Çarsisi”). Como não podia deixar de ser, decidimos ir lá. Mas foi aí que começaram os nossos – mais meus, é verdade – problemas. Nos perdemos bisonhamente. Devíamos ir para o oeste e fomos, sei lá o porquê, para o leste. Isso não é comum, registro logo. Sou muito bem localizado com ruas e mapas. Li não sei onde que isso é uma caraterística masculina, em razão do maior nível de testosterona no homem. “Estava acontecendo algo comigo em termos hormonais?”, foi o que, assustado, indaguei para mim mesmo.

Após essa perdição (quase) desesperadora, graças a Deus (e aos mapas, agora lidos corretamente) nos achamos e topamos com o tal Bazar dos Livros, que pode ser considerado, a bem da verdade, como mais um dos anexos do Grande Bazar. Trata-se essencialmente de um grande pátio, em parte coberto, rodeado de muitos comércios de livros usados. No mesmo local, segundo li, funcionou um antiquíssimo mercado bizantino de livros. Hoje, o maior homenageado ali, com uma estátua, é Ibrahim Müteferrika (1674-1745), o grande polímata de origem húngara, mas feito otomano, que é considerado o primeiro editor de livros do mundo otomano-árabe.

Bom, sem saber uma palavra de turco e novamente “perdido”, acabei saindo do Bazar dos Livros sem comprar quase nada – a não ser um guia de viagens em inglês, “All Istambul: City of Civilizations” (Editora Anadolu, 2010), de um tal Erdem Yücel, que consultei para escrever esta crônica –, o que, registro, não é algo comum para mim quando se trata de visitas a sebos e assemelhados. Mas essa nova perdição, quero acreditar, nada tem a ver com testosterona alta ou baixa.

 

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Mestre em Direito pela PUC/SP

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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