Mourão e Jungmann-

Duas figuras políticas chamaram minha intenção durante o imbróglio envolvendo a não punição disciplinar do general Pazuello e o confronto da PMPE com manifestantes. O vice-presidente da República, General Antônio Mourão e o ex-ministro da Defesa do governo Temer, Raul Jungmann.

Imediatamente após a manifestação de Pazuello na “motociata” de cunho político promovida por Bolsonaro, em 23 de maio passado, Mourão disse, argutamente, que o general da ativa deveria ser punido “para evitar que a anarquia se instaure dentro das Forças Armadas”. Em mais uma amostra de que ele e o Presidente não rezam pela mesma cartilha. Mourão quer ser candidato à presidência da República.

Mourão, convém lembrar, atropelou o Regulamento Disciplinar do Exército durante o governo Dilma. Contestou sua autoridade, em 2015, e foi punido pelo comandante do Exército, General Eduardo Villas Bôas, aquele que escreveu um tuíte pressionando o STF em desfavor de Lula. Mourão perdeu o comando militar do Sul e foi enviado para servir como secretário de Economia e Finanças do Comando do Exército, cargo de ordem administrativa.

Já o ex-ministro da Defesa, Raul Jungmann, pediu com veemência a punição do general Pazuello. Disse que o Exército “capitulou” e declarou: “É hora de reagir e de unidade, antes que seja tarde”. Não mostrou tanta indignação quando o mesmo Mourão em palestra proferida em uma loja maçônica de Brasília, em 2017, pediu a intervenção militar contra Temer. Algo muito mais grave do que o realizado por Pazuello. Embora reincidindo na indisciplina, Jungmann amarelou e aceitou que Mourão sofresse apenas uma advertência informal do seu superior, o mesmo general Vilas Bôas. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, diz o ditado popular.

Raul Jungmann, em entrevista concedida ao Estado de S. Paulo (6/621), levantou a possibilidade de que o distúrbio ocorrido entre a PMPE e manifestantes, na semana passada, tivesse conotação ideológica bolsonarista. Não apresentou uma evidência que pudesse corroborar sua suposição. Será que o governador de Pernambuco, que é de esquerda, já não teria acusado de bolsonarismo os policiais que feriram os manifestantes caso tivesse certeza disto? Detalhe: das cerca de 200 manifestações de rua contra Bolsonaro realizadas, em 29 de maio passado, apenas uma terminou em conflitos sangrentos. Tomar a árvore pela floresta é exemplo de falácia de composição.

 

 

 

Publicado originalmente em O PODER (08/06/21)

 

 

 

 

 

Jorge Zaverucha – Mestre em Ciência Politica pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Doutor em Ciência Política pela Universidade de Chicago; Professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da UFPE

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