DE JOÃO –
Ele foi um artista ímpar. Como intérprete, me pareceria ser o mais singular entre todos por essas bandas. Modificava compassos, destruía andamentos. Truncava as letras das músicas. Repetia muito o repertório, mas nunca se repetia. Ao violão, sua ideia de harmonia nunca era a mesma. Nenhum clamor rítmico, nenhuma vocalidade extrema. Os ritmo era esboçado, como se diz, de forma rotineira, a partir das cordas baixas do instrumento e logo após vinham os acordes. Em outras ocasiões, no entanto, ele invertia o processo. Fazia um outro caminho, com os acordes antecedendo os baixos. Um modo inverso e original de se acompanhar. Uma delícia pra quem se ligava naquela arte diferente posta em prática. E um fio de voz a “sussurrar” a música. Às vezes como a “recitar” o texto. Até quando sacaneava em espanhol ao dizer, “bésame muncho”, ao invés do correto “bésame mucho”; ou esboçando um leve sorriso ao cantar “Uondêfol / Mahvellos” (“Wonderful / Marvelous”) em baianês. A pronúncia diferente dava um certo charme, um colorido especial a elas. Deslizes linguísticos como aqueles eram encarados como licença poética. Os críticos, curvados à sua genialidade, costumavam dizer: “Gershwin compôs Ogerman arranjou, e João arrasou…”. Quando o ouço é como ele dizendo “as notas vão mudar mas a base é uma só”. E que perfeição. A orquestra só o acompanhava de acordo com o que ele queria e estabelecia. Cada interpretação sua se dava num espectro harmônico sempre inusitado. O seu “violão gago” é sempre imitado. Os que o tentam copiar, dançam. E quem presta atenção aos detalhes da sua visão musical se deleita. Perfeccionista ao extremo, um ruído mais forte do ar condicionado o tirava do sério. Nas suas raras incursões como solista, também, exibia genialidade a toda prova. Questão só de ouvir com atenção a versão violonística de “Na baixa do sapateiro”, que está no seu “disco branco”. A peça é desenvolvida praticamente só com acordes, construídos nos baixos e em certas cordas soltas. Sempre atentar para o fato deles serem percutidos em formatos diferentes durante a execução. A cada vez que eram repetidos, modificava a força de pulsão dos dedos em determinadas notas. Os seus arranjos estão repletos de detalhes acrescentados (quartas, sextas, nonas, quintas diminutas e aumentadas, sétimas maiores e diminutas, e por aí vai). Soavam dissonantes aos ouvidos ainda habituados à harmonia tradicional. Eram encadeados de modo diferente, fundindo os campos maior e menor. Procedimento bastante utilizado no jazz, na música erudita, mas incomum na música popular brasileira. Nas diversas versões, ele parecia hesitar entre a cadência original e suas invencionices instintivas. Mas, o que ninguém sabia, era que tudo aquilo era premeditado. Fruto de muito empenho e foco.
Sugiro ouvir a versão do “Hino Nacional Brasileiro” e do “Águas de Março”. Os andamentos originais são descontinuados e encaminhados de forma inusual. Fundindo com perfeição o som da sua voz ao do violão. São muitos os detalhes na sua obra que necessitam ouvidos atentos: o segredo de se ouvir, compreender e gostar do seu som.
Quem sintetizaria tudo o que eu quero dizer é Caetano. “ O seu senso de proporção se expõe de modo tão lúcido que suas descrições técnicas e conclusões interpretativas iluminam , superando todos os esforços dos que o antecederam na tarefa de explicar-nos como e por que a arte de João é o xis do problema”. Naquele tempo, eu não sabia muito o que era rock and roll. Não sabia bem o que era MPB. Muito menos música erudita. Nem sabia direito o que era interpretação de qualidade. Mas já sabia quem era João Gilberto.
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Perfeito o artigo Delfino.
João Gilberto tem que ser apreciado como um vinho especial para poder saborear os tênues sabores escondidos.
Grande violonista. Uma música que marcou muito, foi de sua contenda com Luís Bonfá.
Ali revela uma técnica impressionante na música Abraço no Bonfá.
Enfim, um mestre !