A fase atual da jovem Democracia brasileira exige de todos os brasileiros uma séria reflexão sobre a nossa capacidade de sermos tolerantes com as ideias e as propostas com as quais não concordamos.

Perigosamente, paira na atmosfera pós-eleitoral uma brisa de intolerância que, por sua irracionalidade e descompromisso com os valores democráticos, precisa ser tomada a sério por todos os que têm responsabilidade com o Estado Democrático de Direito; o qual nos assegura muitas liberdades, principalmente a Liberdade de expressão e manifestação.

Nietzsche, no seu incomparável texto “Humano, demasiado humano, como ele mesmo o designou, “um livro para espíritos livres”, advertia-nos contra a ilusão de quem pretende pureza e inocência ao cuidar de coisas humanas: “Se vivemos muito próximo de um ser humano, então nos sucederá a mesma coisa quando tocamos várias vezes uma bela gravura com os dedos nus: um dia teremos nas mãos apenas um papel sujo e ruim, nada mais”.

O perigo encontra-se na atitude (bem intencionada?) que leva ao absurdo essa abstração, ora enxergam na política apenas impureza e velhacaria, ora prescrevem-lhe candura e santidade.

A “moralização da política” tem o pior de ambos os defeitos de julgamento: por um lado, é injusta com a política ao descrevê-la a partir de uma perspectiva exclusivamente pecaminosa; de outro lado, é ingênua ao prescrever-lhe uma pureza inexistente até nos mosteiros beneditinos.

Aqui no patropi, ao final do processo eleitoral, ao invés da discussão de ideias, planos de governos e projetos que atendessem os graves problemas que atingem nossa sociedade, nos três níveis de governo de nossa Federação; o que se observou foram grupos de todas as cores políticas incentivados a responder a um anseio difuso de administrar o debate político; estimulando – sem o admitir – a intolerância de parte a parte.

No Brasil, como em qualquer outro lugar, os inimigos da Democracia são todos aqueles que tratam o seu oponente como mal a ser excluído – não importa por qual meio – do debate, da disputa política, ou da vida.

A meu ver, numa Democracia, a única intolerância deve ser com os intolerantes; e com a corrupção.

A Democracia, precisamente por ser o regime da Liberdade de expressão e manifestação, por excelência, é o regime que mais exige responsabilidade de seus cidadãos.

Mais do que isso, a Democracia exige do seu cidadão, além de participação, uma elevada quota de tolerância, pois é nesse regime de liberdades que o cidadão tem que aceitar que nem sempre suas ideias prevalecerão, nem sempre o seu partido sairá vitorioso e muitas vezes suas propostas serão derrotadas.  

Nada mais inaceitável para a Democracia que a tentativa de demonizar negativamente o comportamento do outro. Essa assertiva é válida, como diria o Papa Francisco, “urbi et orbi”. Aqui e em Paris.

Nada justifica a barbárie cometida, em Paris. Nem as charges zombando Maomé publicadas pela revista Charlie Hebdo, nem as missões de ocupação realizadas pela França atualmente contra três países muçulmanos.

A morte de civis não tem explicação racional. Mas a forma como a mídia trata o assunto, revela preconceito social e manipulação de ideias sobre o que é o mundo muçulmano, em todas as suas formas. Até porque a grande maioria das vítimas do terrorismo islâmico é muçulmana.

Isso não é publicado ou conhecido pelas pessoas comuns, que acreditam que o mundo muçulmano, como um todo, é contra a “Europa livre e cristã”. Aliás, de acordo com o serviço secreto dos Estados Unidos, o próximo alvo do grupo terrorista “Estado Islâmico” será o Vaticano, o qual está em alerta máximo.

Francisco pediu que “dirigentes religiosos, políticos e intelectuais muçulmanos” condenem qualquer interpretação fundamentalista e extremista da religião que justifique a violência”.

É preciso que se diga que, todos os dias, no Iraque, Líbia, Síria e Iêmen, os mulçumanos sofrem as consequências do fundamentalismo.

Ou seja, o fanatismo cego e surdo, de qualquer credo, é que é o inimigo da Democracia.

Destaque-se que o Islã, nos 114 capítulos (suras) do livro sagrado, Alcorão – prega a tolerância e o amor.

A realidade é muito mais complexa. Curiosamente, o Islamismo é a segunda maior religião da França.

Dos 850 mil habitantes de Marselha, um terço segue o Islamismo. São imigrantes africanos, vindos principalmente dos países islâmicos, e que há pouco mais de 50 anos ainda eram colônias francesas.

Resumo da ópera: é urgente procurar convergências, respeitar diferenças e, de tal modo defender a Liberdade de expressão, que a universalidade faça da tolerância um dever; a coexistência pacífica entre os povos, enfim. Em Paris, no Oriente médio, ou aqui no patropi.

Cá no meu canto continuo, com a única arma que tenho – a palavra – buscando a Estrela da Manhã.

Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

Ponto de Vista

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