PARA ENTENDER A INVASÃO HOLANDESA – Tomislav R. Femenick

PARA ENTENDER A INVASÃO HOLANDESA –

Nós brasileiros somos um povo criativo, somos dados a divagar indolentes e irresponsavelmente sobre os mais diversos assuntos, até sobre quais melhores teriam sido nossos colonizadores, se os portugueses ou os holandeses. A peça teatral “Calabar: o elogio da traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra é um exemplo disso. No licenciamento poético da peça, Calabar é transformado de alguns que se vendeu aos invasores (traindo aos colonos portugueses) em um herói, cujo objetivo era o melhor para o povo brasileiro, um conceito inexistente na época. A figura de Calabar foi escolhida simplesmente para afrontar as verdades estabelecidas pelo poder – a peça é de 1973, época do governo militar.

Esta é uma daquelas situações verdadeiramente bizarras. Os holandeses desde o início participaram da colonização do Brasil. A produção açucareira portuguesa foi compartilhada pelos holandeses, que financiaram a instalação dos engenhos no Brasil, refinavam e distribuíam na Europa o açúcar aqui produzido. Essa convivência comercial pacífica foi quebrada pela união das coroas dos reinos de Portugal e de Espanha (com a hegemonia desta última) em 1580, quando os holandeses se viram, paulatinamente, excluídos dos negócios brasileiros, por proibições da coroa espanhola. Daí resultaram as lutas travadas pelas Províncias Unidas (Holanda) contra a Espanha, Portugal e suas colônias, até 1640 (HOOGERGEN, 1995), quando houve o ressurgimento o coroa luza.

Além do mais, o Brasil foi colônia da coroa portuguesa, isto quer dizer do país Portugal, enquanto que o chamado Brasil Holandês era um negócio de uma empresa comercial, a Cia. das Índias Ocidentais, da qual Maurício de Nassau era apenas um empregado (algo assim como que um alto executivo), da qual foi demitido pelo que hoje chamaríamos de gestão temerária, isto é, gastava demais o dinheiro da empresa e gerava poucos lucros.

Na verdade, a invasão do nordeste do Brasil por holandeses foi realizada sob inspiração de alguns calvinistas de Antuérpia, Grand e de cidades flamengas – tendo à frente Willem Usselinex – empenhados em enfrentar até com a guerra, se preciso fosse, o reino espanhol (SCHAMA, 1992). Sua doutrinação para que os holandeses tirassem vantagem das riquezas brasileiras data de 1608, quando publicou um folheto no qual defendia o estabelecimento de uma companhia para explorar o açúcar, “as matérias corantes, as pelas, as pérolas etc.” Em 1621 foi finalmente organizada a Cia. das Índias Ocidentais, cujos acionistas eram, na sua maioria, investidores de pequenas posses que compravam ações a prestação e tinham formação calvinista (WIESEBRON, 1995). Embora contasse com o apoio governamental, a aventura holandesa em terras brasileiras foi um ato de inspiração e fato da iniciativa privada.

Vista por esse ângulo, a Holanda é um caso à parte na história do colonialismo, praticado sem mando do rei e sem as bênçãos de Deus, tendo o lucro como objeto declarado. Para se entender essa peculiar situação é necessário que se compreenda a essência do Estado holandês. Até 1500 o território das dezessete províncias (que hoje formam as atuais Holanda e Bélgica) formavam os Países Baixos, sob a dinastia dos Habsburgos, quando foram separados. Os motivos dessa divisão foram vários: as lutas religiosas, deflagradas pela reforma e contrarreforma; as disputas políticas, com os franceses, espanhóis e príncipes germânicos, e os enfrentamentos econômicos, em defesa dos negócios das províncias do norte. Os valões, católicos, ao sul, formaram a Bélgica; os flamengos, protestantes, ao norte, formaram a República das Províncias Unidas, a Holanda. A migração de capitais produtivos e mão-de-obra especializada de Amberes e Antuérpia (Bélgica) para Amsterdã (Holanda), durante o século XVI, converteu esta última em uma das mais importantes cidades de convergência comercial do mundo.

Assim, a estrutura do poder nacional holandês tinha como base os interesses comerciais da sua burguesia, voltados para o comércio, à manufatura, às atividades rurais e, não menos importante, a conquista dos mares (FERRER, 1996; HOOGERGEN, 1995; FERRO, 1996) e do tráfego de escravos.

 

NOTA: Em meu último artigo tratei do tráfego de pessoas brancas, vendidas como escravos, durante o período da América colonial. Recebi alguns e-mails sobre o assunto. Uns simplesmente estranhavam o fato, outros eram simples insultos. Resolvi voltar ao assunto apenas com dois relatos esclarecedores: 1º) Quando expulsos do Brasil, alguns holandeses capturaram cerca de cinquenta portugueses residentes no Maranhão e os venderam em Barbados, como escravos (GOSLINGA, 1983); 2º) O ano de 1619 foi “notável” para a Virgínia por três fatos: a chegada da Inglaterra de noventa jovens donzelas, para serem vendidas por 120 libras de tabaco; a compra de vinte escravos negros a traficantes holandeses, e o início do primeiro governo legislativo. Segundo Max Weber, esses “brancos semi-escravizados” eram “abundantes nas colônias norte-americanas da Inglaterra, onde seu número, no século XVII, foi superior ao dos negros” (WEBER, 1968). Quem quiser saber mais sobre o assunto, leia os livros “Os escravos: da escravidão antiga à escravidão moderna” e “Os herdeiros de Deus: a aventura dos descobrimentos e os negócios da colonização”, de minha autoria.

Publicado na Tribuna do Norte. Natal, 30 maio 2019

 

 

 

Tomislav R. FemenickMestre em economia, com extensão em sociologia. Do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

 

 

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