PÃO COM QUEIJO –       
Apareceu uma vidraça quebrada, no Colégio.

O velho professor chamou a classe toda e ordenou que o culpado se apresentasse. Fez-se um silêncio absoluto: ninguém se acusava. O professor repetiu a ordem, com energia. Foi então que o menor aluno da classe, o mais magrinho, o mais obediente, o mais comportado, o mais pobre, o mais triste, afastou os companheiros que estavam à sua frente, deu um passo adiante e falou, olhando as tábuas do assoalho:

– Fui eu, “sêo Fessô”.

Respondeu o Mestre:

– Pois ficará privado do recreio e fará um grande castigo escrito, para que se emende!- Sentenciou o austero Professor.

A aula recomeçou entre o mais profundo silêncio. A grande sala da classe parecia uma nave de Igreja. Havia no rosto daqueles meninos uma mistura de medo e de piedade. Além das palavras graves do mestre, só se ouvia o ruído compassado do pêndulo do relógio.

De repente, um soluço abafado despertou a atenção da classe toda. O velho professor lançou para a ponta do terceiro banco os olhos cansados, e falou:

– Levante-se, senhor Lacerda! Por que está chorando?

– Fui eu, “sêo Fessô”, quem quebrou o vidro.

O mestre fechou o livro que tinha sob os olhos, tirou os óculos e perguntou: com voz mais branda:

– Então, por que deixou seu colega ser repreendido e castigado?

Como o menino não desse logo a resposta, virou-se para o outro:

– Senhor Paulo! Explique-se! Por que o senhor se acusou de um ato que não cometeu?

Paulo, o menino pobre, o menorzinho da turma, o mais triste e o mais comportado, disfarçou, procurando abotoar o punho da camisa, e, gaguejando e tropeçando nas próprias palavras, respondeu:

– De manhã, eu só tomo café puro…Mamãe trabalha na fábrica. Não me dá merenda para eu trazer para a escola, porque o pão não chega para todos. Então, o Lacerda me dá sempre, na hora da merenda, pão com queijo, sem eu pedir, pois sabe que eu estou com fome.  Já disse a ele que um dia eu havia de pagar esse pão com queijo com que mata minha fome. O dia foi hoje….

O velho Professor, visivelmente comovido, suspendeu a aula. E suspendeu o castigo, também. A lição daquele dia foi aquele belo exemplo de coleguismo e de gratidão, que o velho mestre compreendeu perfeitamente e lhe trouxe lágrimas aos olhos.

Todos riram, na classe, felizes com o bom desfecho do acontecimento.

 

 

 

 

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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