PALAVRAS DO DOUTOR –

Samuel Johnson (1709-1784), dito Doutor Johnson, foi um daqueles excêntricos gênios ingleses. Nascido na pequenina Lichfield, no oeste da Ilha, estudou na Universidade de Oxford. Mas faltou dinheiro e ele foi morar em Londres. Ganhar a vida. No jornalismo e, depois, tratando sobre quase tudo. Escreveu poesia. Ensaios variados. Muita crítica literária. Foi biógrafo de muita gente boa. A sua “Lives of the Most Eminent English Poets”, de 1781, não me deixa mentir. Foi lexicógrafo (vide seu famoso “Dictionary”) e editor sem par na história do seu país. Corpanzudo, rechonchudo mesmo (segundo os retratos que temos dele), cheio de tiques e manias, Samuel Johnson é por muitos celebrado como “o homem de letras mais distinto da história da Inglaterra”. Já idoso e debilitado, ele faleceu na adorada capital do Reino Unido.

De toda sorte, acho que o legado do Doutor Johnson reside hoje sobretudo em duas grandes obras. Uma é o seu “A Dictionary of the English Language”, também chamado de “Johnson’s Dictionary”, inicialmente publicado em 1755. Dizem que ele levou sete anos para escrevê-lo, praticamente sozinho. Foi revisado e reeditado várias vezes pelo autor em vida. Até a publicação do “Oxford English Dictionary”, mais de uma centena de anos depois, foi o dicionário de referência para a língua inglesa. O “Johnson’s Dictionary” é frequentemente tido como um dos mais importantes empreendimentos da cultura universal, talvez até o maior já realizado por uma só pessoa nas condições de então.

Curiosamente, a segunda obra à qual devemos a badalação do Doutor Johnson não foi escrita por ele, mas, sim, por seu amigo e biógrafo James Boswell (1740-1795). Trata-se de “The Life of Samuel Johnson”, um texto enorme, que possuo numa bela edição da Everyman’s Library, de 1992. Dela consta: “A mais celebrada biografia em inglês é um grupo de retratos na qual um homem extraordinário desenha as figuras de uma dúzia mais. No centro desse brilhante círculo, o qual inclui Burke, Reynolds, Garrick, Fanny Burney e mesmo George III, Boswell foca a poderosa, problemática e original figura de Samuel Johnson, que pontifica acima de todas as outras. Embora esta seja também um retrato íntimo da vida doméstica, que mistura os maiores conversadores de uma era dourada da conversa com os amigos mais simples do nosso herói na maior e mais tocante de todas as biografias”.

Noutros tempos, morando em Londres, paguei meu tributo ao enorme Doutor Johnson. Recordo-me de haver ido algumas vezes à Dr Johnson’s House, casa-museu que fica no número 17 da Gough Square, na City londrina. Bem pertinho da biblioteca do King’s College London – KCL, onde estudava quase todos os dias. Consta que, morando de 1748 a 1759, Samuel Johnson teria ali terminado o seu Dicionário. Sítio belo e histórico. Vale a pena visitar.

Era – e sou cada vez mais – fã de Samuel Johnson. Sobretudo de suas frases. O Doutor, à moda de muitos sábios, era um grande frasista. Uma delas, em especial, bastante adequada para o Brasil de hoje, muito me tocou: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. E olhem que o homem era um reconhecido conservador. Matutava sempre sobre essa sentença quando ia tomar umas pints no Ye Olde Cheshire Cheese, antiquíssimo pub da região (sito na Fleet Street), outrora frequentado por Charles Dickens (1812-1870), Arthur Conan Doyle (1859-1930), G.K. Chesterton (1874-1936) e o próprio Johnson, entre outros gigantes das letras. Eram todos regulars do local. Ao menos espiritualmente estava bem acompanhado.

E ainda matuto. Pois são as palavras do verdadeiro doutor!

 

 

 

 

 

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Mestre em Direito pela PUC/SP

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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