ONTEM –

Ontem eu era menino, rapaz, homem, hoje sou um velho moço, velho na idade, moço de espírito por isto namoro o ontem, gosto de recordar o passado.

Em entrevista recente, dada no programa Memória Viva, o entrevistador focou-se exatamente na minha juventude, nas minhas conquistas na época, nas minhas brincadeiras, por isto recordo muito bem as coisas boas e ruins que aconteceram.

Ainda com sete anos de idade, fui estudar no Externato Nossa Senhora da Conceição, que ficava na Avenida Floriano Peixoto, a diretora era Dona Maria Dourado, pessoa que estimei muito, que visitei até seus últimos dias e fiz amizade com seus filhos, filhas, netos e genros. Também fiz amizades que duram até hoje.

Eu era uma criança alegre, embora tenha tido problemas de saúde sérios, alguns ainda duram, procurei e procuro enfrentá-los com a minha alegria.

Quando rapaz gostava de praticar esportes, joguei quase tudo, mas só me sai bem em futebol de salão, onde joguei pelo ABC (juvenil) e pelo Náutico Capibaribe em Recife, mas, papai foi lá e “cortou meu barato”, pois, tinha ido para Recife, para estudar e não ser jogador de futebol. Gostava de cantar e fazer serenatas. Lembro-me que certa vez na praia da Redinha (meu porto seguro na época) fizemos uma serenata na casa de um senhor muito conhecido em Natal, que tinha umas filhas bonitas e no outro dia pela manhã quando ia passando em frente a sua casa – fazia isto diariamente, uma de suas filhas me chamou e disse: – Guga papai está esperando para falar com você. Pensei comigo mesmo, “o pau vai cantar.” Criei coragem e fui enfrentar a fera, (pai da moça) que estava deitado em uma rede no seu quarto, e deitado mesmo falou: – Guga vou lhe pedir um favor, faça outra serenata como aquela de ontem, pois, foi a mais bonita que já ouvi.  Sai realizado, e passei de vilão a herói.

Outra vez, saímos do Mercado pela madrugada, já “mais pra lá do que pra cá” um amigo tocando o violão e cantando bem alto uma música do cantor gaúcho Teixeirinha, cujo tema era um assassinato de uma mulher. Ele cantava bem alto e gritava – Vou matá-la sua vagabunda. Eu vinha mais atrás gritava imitando uma voz feminina – Covarde, não faça isto, não me mate. Andamos uns mil metros nessa brincadeira, o dia perto de nascer.

Fomos dormir na nossa República. Quando o dia amanhece, abri a porta da frente e vejo que a casa estava cercada de policiais, o delegado foi falando.

– Eu quero a arma do crime e o corpo da mulher. Sem pensar duas vezes gritei- Fulano, levanta, traz a garrafa de cachaça, e diz a Maria que o delegado quer comê-la. Foi uma risadeira geral, a tropa bateu em retirada.

 

Guga Coelho Leal – Engenheiro e escritor, membro do IHGRN

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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