O VENENO DAS PALAVRAS – Geraldo Ferreira

O VENENO DAS PALAVRAS – 

O uso das palavras a fim de converter pessoas às suas convicções é sobejamente utilizado por reformadores, militantes políticos e ideólogos. A apropriação de termos ou alterações de seu sentido de forma trapaceira visa determinar nossas decisões, assim as palavras podem carregar veneno que influenciam as interações e relações humanas. Confúcio dizia que se as palavras não tem sentido, a ação torna-se impossível. O modo de falar e empregar as palavras não leva a simples afirmações, conduz a interpretações ou teorias sobre causas ou consequências de fatos. “A linguagem transmite não apenas sabedoria, mas também um tipo de insensatez que é difícil erradicar”, diz Friedrich Hayek, “ Muitas crenças amplamente aceitas vivem apenas de forma implícita nas palavras e expressões que as implicam e é possível que jamais venham a ser explicitadas, para se isentarem da possibilidade de crítica”. Se usamos um vocabulário baseado em uma teoria errônea, passamos à frente o erro. É acentuada a influência do pensamento totalitário sobre a linguagem, há um propósito nisso, Hayek usa a tradução do pensamento de Confúcio sobre as palavras de uma maneira diferente: “Quando as palavras perdem o significado, as pessoas perdem a liberdade”, ou “Se a linguagem for incorreta, as pessoas não terão onde por as mãos e os pés”. A política identitária e o politicamente correto levaram a uma deturpação tão grande de sentido e razão de palavras e linguagem que muitas vezes ao usá-las não conseguimos sequer delimitar com clareza sobre o que estamos falando. Há por trás dos formuladores desses conceitos o claro interesse de moldar pensamento e comportamento pela associação íntima entre a linguagem e a emoção que buscam criar com uma nova interpretação. Algumas palavras acopladas a outras sugam totalmente o sentido da primeira numa espécie de nova moral racional que pretende substituir a moral tradicional, que suplanta para se tornar moralmente inquestionável. Isso é comum com a palavra social, que usada em conjunto com palavras como política ou justiça criam a noção de que aquele tipo particular é o melhor. Mas o termo social é apenas a tentativa de criar uma esfera absolutista sobre o que conceitua com sentido desvirtuado. Wiese diz que ser social não é o mesmo que ser bom ou justo. Palavras como social, progressista ou popular, esvaziam o significado de substantivos que qualificam como justiça, economia, política, democracia, levando a erros e criando expectativas inatingíveis. O vocabulário identitário somado ao politicamente correto é, no dizer de Antônio Risério, “o inferno do que quer que cheire a democracia e liberdade de expressão.” Os coletivos que são a nova expressão da intolerância e da censura, buscam a todo custo controlar a postura e o discurso que discrepe do que o grupo porta como dogma ou verdade. O que no início era uma redenominação, busca de palavras ou arranjos que corrigissem depreciação de certos grupos sociais ou étnicos, transformou-se numa aventura linguística que tenta mexer em aspectos estruturais da língua e do discurso. Via de regra a alteração nas denominações ditas ofensivas terminam em alguma forma de nominação ligada a necessidade ou carência, que pugna por reparação e tratamento diferenciado. As palavras que tratam de cultura, gênero, raça, identidade, despertam emoções aflitivas e acendem paixões arrebatadoras. Karl Marx dizia que ideologia era um instrumento de dominação que agia pelo convencimento, alienando a consciência e mascarando a realidade. Jorge Bessa, em Marxismo, O Ópio dos Intelectoides Latinoamericanos, alerta para o risco do extremismo ideológico desarrumar a sociedade “debilitando a moral, a cultura, a educação, a religião, a família, achando que esse é o sentido da história.” A escola de Frankfurt e seus filósofos como Hockheimer, Adorno, Erich Fromm, Marcuse, dissecaram a ideia de cultura como meio de controle social. O envenenamento das palavras se alastrou dali.

 

 

 

 

Dr. Geraldo Ferreira – Pres. SinmedRN
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

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