O SONHO E O REAL – Alberto da Hora

O SONHO E O REAL – 

Desde a infância, muitos sonhos ocuparam minha lista de preocupações e anseios. No meu primeiro subúrbio, a Guarita dos anos 1950, queríamos ter água corrente em casa, para evitar o trabalho de coletar, com grande esforço físico, no chafariz ou nas torneiras da oficina da Rede Ferroviária. Ter um banheiro decente, e não um insalubre cubículo instalado nos fundos do quintal, três refeições normais todos os dias, ser militar, um marinheiro, talvez. Nos sonhos mais afoitos, eu queria jogar no time do ABC, casar com uma moça de cabelos longos, ser cantor de rádio. E um dia, eu teria um grande e bom trabalho, para dar dinheiro aos meus pais. Nas Rocas, uma pequena padaria com um parco salário semanal foi o meu primeiro emprego. No segundo, o Sindicato dos Ferroviários, quando recebi o dinheiro dos sete meses de pagamento atrasado, realizei um dos meus sonhos mais simplórios: comprei e devorei, orgulhoso, uma enorme e desejada barra de chocolate. Também comprei uma bicicleta para o meu irmão.

Muito tempo depois, passei tempos agradáveis e memoráveis na Rádio Cabugi, e fui professor de História por dois anos, enquanto trabalhava como técnico em contabilidade. Nessas atividades, materializei alguns sonhos. Aquele, de ajudar os pais, porém, durou pouco tempo, porque os perdi muito cedo. Achava que tinha vocação e sonhara ser um jornalista. Faltou-me disposição para enfrentar um curso formal. Senti-me honrado e feliz por ter sido empregado da querida Caixa Econômica, embora trabalhar ali não fosse meu objetivo pessoal. Foi lá, afinal, que consegui o meu sustento financeiro e onde angariei um grande número dos amigos que, um dia, sonhei reunir. Ser um bancário aposentado, hoje, representa um pouco além do que, como adolescente, desejei ser e ter.

A minha idade, embora vetusta e meio triste, acabrunhada, não me furta o direito de projetar outros sonhos, tanto aqueles que ainda venho criando e alimentando, como os que imaginei viver, desde a infância, adolescência e juventude. Não me lembro de ter plantado árvores, mas tive não só um, mas três filhos, e até já escrevi e publiquei um livro, o que, de alguma forma, me coloca como um personagem da frase do escritor cubano José Martí, que propôs as três realizações que marcariam positivamente a passagem do homem pelo mundo.

Hoje, entre os poucos sonhos que me assaltam, imagino a quimera de um mundo solidário, pacífico, sem incompreensões e sem os portões das fronteiras físicas, econômicas e ideológicas; países e homens solidários e generosos, conscientes da brevidade das suas vidas e sua dependência das indomáveis forças cósmicas que regem o Universo. Militante da Legalidade, da Justiça e da Democracia, na prisão cruel e arbitrária, eu sonhava com a volta para casa, enquanto acreditava na prevalência do Direito, sonho acalentado sob as dores dos açoites. Ainda almejo ardentemente um Brasil que seja, finalmente, amado e respeitado pelos seus homens públicos, que, por desiderato próprio ou por respeito às leis, tornem-se dignos da liderança que os obriga a conduzirem o país com ordem, decência e honestidade. Infelizmente, um sonho tolo, ingênuo e pueril.

Mas eu me prefiro assim. Não tenho forças para mudar a realidade, por isso, me reservo o direito de querer, desejar e cultivar, por consumo e produção, as manifestações artísticas. Não na quixotesca intenção de alcançar a glória, mudar os caminhos do mundo ou conquistar uma distante Dulcinéia, mas porque não custa muito ou nada sonhar. Mesmo que uma realidade castradora nos mergulhe no descrédito e na desconfiança; mesmo que um inelutável pessimismo seja capaz de tornar os desejos proibidos e os sonhos impossíveis.

 

 

 

 

 

Alberto da Hora – escritor, músico, cantor e regente de corais

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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