O PAÍS QUE ESPERA O SAMBA PARA O ANO COMEÇAR –
“O brasileiro não vive o tempo, ele o deixa passar. ”
Mário de Andrade
No Brasil, o ano novo não desponta com o badalar da meia-noite de 31 de dezembro. Não, senhores. Ele cochila preguiçoso sob as luzes da virada, boceja durante o mês de janeiro e só acorda, de verdade, quando os tambores do Carnaval ecoam pelas ruas. “Perdemos” um mês inteiro nesse costume de espera coletiva, nessa consciência de que o “verdadeiro” começo é sinônimo de folião e de purpurina. Janeiro vira um limbo: as resoluções de Ano Novo murcham como confetes no asfalto, e o país inteiro adia o trabalho, os projetos, a vida adulta. É como se o calendário gregoriano fosse uma mera sugestão, atropelado pelo ritmo de samba de nossa alma tropical.
Pense nisso: perdemos janeiro num vai-não-vai existencial. As praias lotam de corpos bronzeados, mas as agendas permanecem em branco. “O tempo é a imagem da eternidade”, diria Platão em seu Timeu, mas aqui, no calor potiguar ou carioca, o tempo se distorce, alonga-se num mês de procrastinação festiva. Perdemos 30 dias preciosos, nessa ilusão de que o Carnaval é o batismo do novo ciclo. Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, capturaria isso com ironia fina: “Ao criar o homem, Deus fez do coração a caixa de surpresas; mas, ao criar o brasileiro, acrescentou o feriado como luva”. Sim, o feriado é nossa fraqueza gloriosa, o pretexto para adiar o que realmente nos move.
Essa perda não é só temporal; é cultural, uma herança de um povo que dança para esquecer as contas. Filósofos como Henri Bergson, em A Evolução Criadora, falariam da “duração” subjetiva do tempo, onde o relógio ocidental colide com nossa temporalidade intuitiva, elástica como o frevo. Perdemos janeiro porque preferimos o êxtase efêmero ao labor metódico, trocando produtividade por purgação coletiva. E assim, fevereiro chega como o mês redentor, com blocos e serpentinas, enquanto o PIB engatinha e as metas evaporam.
Mas eis a reflexão final: o calendário gregoriano, com seus feriados e datas rígidas, não define nossa maneira de aproveitar a vida. Nem nos dignifica no trabalho. São meras convenções, sombras na caverna platônica, que não ditam o ritmo de quem planta sementes no improviso diário. O verdadeiro ano começa quando decidimos que ele começa: não no confete, mas no primeiro passo intencional, no suor do ofício que nos faz humanos. Carnaval passa; a vida, não.
No Brasil, janeiro e fevereiro são meses em suspensão. O relógio até gira, as folhas do calendário caem, mas a vida parece em modo “soneca”. Há uma crença tácita, quase um acordo social não assinado, de que o ano só começa, de fato, depois do Carnaval. Antes disso, tudo é provisório: projetos, dietas, decisões, promessas. Vive-se numa antecâmara do tempo, como se estivéssemos todos à espera de um grande sinal sonoro que diga: agora sim, podem começar.
E, no entanto, essa mesma lógica revela algo profundo sobre quem somos. O Carnaval não é apenas festa; é catarse social, rito de passagem, reinício simbólico. Nietzsche lembrava que “é preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. O brasileiro cria seu caos coletivo, corpos na rua, música, excesso, riso, para depois tentar, em cinzas e ressaca, reorganizar a própria vida. O ano só começa depois porque antes dele precisamos, inconscientemente, nos despir.
Mas há um risco nesse ritual: confundir pausa com paralisação. Confundir celebração com adiamento crônico da própria responsabilidade. Como lembrava Hannah Arendt, é pela ação e pelo fazer no mundo que o ser humano se afirma, não pelo simples passar do tempo.
O ano não começa quando acaba o Carnaval. Ele começa toda vez que alguém decide viver com intenção, criar com seriedade e trabalhar com sentido, seja em janeiro, em março ou no meio de uma quarta-feira qualquer. Confetes não suspendem a vida, apenas a enfeitam. E o tempo, esse velho mestre silencioso, continua a correr, indiferente às nossas desculpas festivas. O que nos dignifica não é o calendário, mas a forma como ocupamos cada dia que ele, generosamente, nos entrega.
Tatyanny Souza do Nascimento – Psicanalista e escritora
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