O OCIDENTE COMO PROPÓSITO E SENTIDO – Geraldo Ferreira

O OCIDENTE COMO PROPÓSITO E SENTIDO –

Nosso tempo enfrenta uma crise moral, muitas vezes percebida como perda de referências ou sentido. As legitimidades são contestadas e novas solidariedade e identidades inventadas. O relativismo moral que se apossou do mundo criou uma modernidade que santifica o egoísmo e idolatra a negação. Não é surpresa o desencanto. Ben Shapiro diz que o Ocidente vive o auge de uma crise de propósitos e ideias. Em O Lado Certo da História, Shapiro discute as noções de valores, razão e ciência, que nos deram a melhor vida em qualquer época histórica. O Iluminismo substituiu a irracionalidade pela racionalidade e criou o tempo moderno, um milagre onde se juntaram ciência e humanismo, razão e progresso. Por que estamos colocando em risco isso tudo, revertendo a uma natureza tribal e reacionária? “Jerusalém e Atenas construíram o Ocidente, construíram a ciência, os direitos humanos, a prosperidade, a paz e a beleza artística, acabaram a escravidão, tiraram bilhões da pobreza e ofereceram a bilhões um propósito”, escreve Shapiro. Jerusalém, Atenas e o direito Romano criaram nosso mundo, que ora se contorce em contradições internas. Amin Maalouf diz que percorremos derivas contraditórias, do comunismo e do capitalismo, do ateísmo e da religião. As identidades assumiram a dianteira sobre as ideologias; raça, sexualidade, nacionalidades, etnias, todos agem em função de suas filiações. Caminha-se para “dois princípios intangíveis e inseparáveis, que são a universalidade dos valores essenciais e a diversidade das expressões culturais”, diz Maalouf, mas complementa “respeitar uma cultura é valorizar sua língua, literatura, expressões teatrais, cinematográficas, musicais, pictóricas, arquitetônicas, artesanais, culinárias”. Nunca compactuar com a tirania, opressão, intolerância, censura, sujeição das mulheres, nepotismo, corrupção, xenofobia, racismo. Temos hoje entre seis e sete áreas de civilização: ocidental, ortodoxa, chinesa, muçulmana, Indiana, africana, latino-americana, mas nenhuma é impermeável ou imutável. Mas um conflito latente permeia a política no mundo, o enfrentamento entre os partidários da liberdade e os da sujeição. “Em que regime vivemos atualmente?”, pergunta Mathieu Bock-Côté, “a quais paixões humanas as instituições da democracia diversitária estão atualmente associadas?” O igualitarismo e o relativismo tecem a trama da modernidade, borrando a fronteira entre o que é desejo e real. A queda do comunismo desfez a relação fantasiosa do Marxismo com a classe operária, mas continua com a epistemologia da exclusão, “é pelo estigma que o afligiria que um grupo seria chamado a se tornar a base de uma teoria revolucionária”, escreve Bock-Côté. Marcuse antevira que a classe operária já não negava a sociedade, antes era parte dela compartilhando suas necessidades e ambições, outras forças de mudança deveriam ser criadas ou fomentadas. O foco revolucionário deverá considerar o conflito, questionando a legitimidade social e seus fundamentos. Esse é o ataque contemporâneo que sofre o Ocidente, da crítica ao capitalismo passou-se à crítica à civilização ocidental, cujos arranjos nessa visão são meras relações de dominação, esse será o terreno fértil da esquerda. A historiografia vitimária busca invalidar a ordem social, criminalizada sistematicamente como uma história de carrascos contra vítimas, necessitadas de reparação histórica. A consciência pesada ocidental é a narrativa fundadora da cultura da culpa, do repúdio, do arrependimento, da penitência. A guerra cultural tenta dobrar o Ocidente, ao atacar suas instituições e as restrições à mente, incluindo as regras de verdade, objetividade, sentido e realidade, o que se busca minar são seus fundamentos. Se razão e propósito moral criaram o Ocidente, a condenação de seus valores, objetivos e sentido é a arma para tentar destruí-lo. Manter a fé na democracia, na liberdade de expressão, na liberdade econômica e numa ideia de moral ou causa comum é a “luta pela alma de nossa cultura”, prossegue Shapiro, como “comunidade forjada a fogo e unida por valores.” Valores que remontam a Atenas, Jerusalém e Roma.

 

 

 

 

 

 

 

Geraldo Ferreira – Pres. SinmedRN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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