O MUNDO ENVENENADO PELA POLÍTICA – Geraldo Ferreira

O MUNDO ENVENENADO PELA POLÍTICA –

As ideias importam, as filosofias, articuladas pelos grandes pensadores, abrem trilhas pelas quais a humanidade viaja. A história da nossa civilização foi construída tendo por base a razão e o sentido, moral e divino. Uma comunidade se constrói a partir de seus propósitos, rumo a uma vida significativa. Para isso, Ben Shapiro, em O Lado Certo da História, aponta a necessidade de predisposição coletiva alicerçada em “comunidades sociais ativas que promovam a virtude e um Estado não restritivo o suficiente para dar margem à livre escolha.” Ao se afastar de seus pilares razão e sentido, na tentativa de se encaixar em movimentos filosóficos e ideológicos que pregam a vida como um caos, sem plano, progresso nem responsabilidades pessoais, a sociedade é levada a uma demagogia política que apresenta seus membros como meras vítimas do sistema que criamos e que para se redimir dele, só com sua destruição. “Em uma era sem propósitos e um universo sem significado claro, esse chamado para politizar tudo e então lutar por isso tem um atrativo indubitável. Isso dá um tipo de sentido à vida”, escreve Douglas Murray, em A Loucura das Massas. Alerta entretanto Murray, que de todas as maneiras que as pessoas podem achar para dar sentido a suas vidas a política é uma das mais infelizes. Se a sociedade apresenta discordâncias, procurar a verdade é a opção mais favorável, mas se essa discordância é politizada como inseparável de todo sentido pessoal, instila paixões incontroláveis, tornando a busca da verdade impossível. A política, calibrada hoje em hierarquias de opressões e poder, invade cada área das interações humanas, atiçando conflitos desgastantes e intermináveis nas questões de identidade, gênero, raça e justiça social. A crença tácita é de que na corrida pela justiça social, a ação da interseccionalidade, ao quebrar a matriz das hierarquias concorrentes, gerará uma era de paz e fraternidade. A guerra sem fim, com a política invadindo e penetrando cada recanto dos relacionamentos, interpretando cada ação como ato político, faz o chamado a viver esse jogo como propósito e fim em si mesmo, e antes de ser uma busca por soluções, pode ser um convite ao desentendimento, à divisão e à destruição da sociedade. O frenesi, que se apossou da política, chama todos a interpretarem cada relacionamento humano como derivado de interações políticas. Em A Modernidade em Julgamento, Leszek Kolakowski afirma que “a crença de que a pessoa humana é inteiramente construída pela sociedade é alarmante”. Isso leva à erosão do conceito de responsabilidade pessoal e o lado sinistro dessa questão é a política traspassando toda vida social, intrometendo-se em cada aspecto da vida, fazendo de todos presas de doutrinas, ideologias e instituições totalitárias. O poder sempre foi desejado e procurado como um bem em si, em um mundo onde tudo se tornou politizado é necessário que se avalie os objetivos políticos em termos não políticos. Os bens básicos vão sempre estar em conflito uns com os outros, segurança e liberdade, liberdade e igualdade, igualdade e direitos pessoais, direitos pessoais e governo da maioria, direito de propriedade e justiça distributiva. O sonho de que, independente do que mostrou a história e o passado, a perfeição da sociedade possa ser obra da engenharia política, coloca a política no ponto de onipotência e como centro da idolatria do tempo moderno. No entanto, acreditar que isso pode correr à revelia dos processos sociais e históricos é uma ilusão mortal. Leszek no seu ensaio sobre a Idolatria da Política, escreve que em atitudes políticas as pessoas podem recorrer à lei divina, à lei natural, à teoria do contrato social ou ao sentimento de continuidade histórica. Ao se perder essas referências e não se reduzir a política às regras técnicas, podemos cair em contradições imobilizantes ou nos perdermos em permanentes e importunos conflitos, viver tudo como política é destruir “nossa existência em uma devoção irracional e fanática”.

 

 

Geraldo Ferreira Filho – Presidente do SinmedRN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1040 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3130 EURO: R$ 5,8380 LIBRA: R$ 6,8740 PESO…

19 horas ago

PONTO DE VISTA ESPORTE – Leila de Melo

  1- Com um gol marcado a três segundos do fim da partida, o América-RN…

20 horas ago

Amazônia tem menor nível de alertas de desmatamento para o 1º semestre em uma década

A Amazônia registrou no primeiro semestre de 2026 a menor área com sinais de desmatamento detectados…

20 horas ago

Master funcionava como ‘máfia fantasiada de banco’, segundo investigadores

Há uma definição que tem se repetido nos bastidores da investigação envolvendo Daniel Vorcaro e…

20 horas ago

Preço dos alimentos: o que ficou mais caro e o que barateou no 1º semestre

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, subiu…

20 horas ago

Câmara oficializa perda de mandato dos deputados Paulão e Dayany Bittencourt após decisão do TSE

A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados publicou, em edição extra do Diário da Câmara na noite…

20 horas ago

This website uses cookies.