O MUNDO DENTRO DE UMA ROMÃ – Alberto Rostand Lanverly

O MUNDO DENTRO DE UMA ROMÃ –

Existem pessoas que atravessam nossa vida deixando marcas que o tempo não apaga. Considero-me privilegiado por ter convivido, na infância, com duas bisavós e um bisavô. Ao mesmo tempo, guardo certo arrependimento por não lhes ter dedicado mais tempo, carinho e atenção. Naquela idade, eu ainda não sabia que os mais velhos são bibliotecas que um dia fecham suas portas.

Eram pessoas doces, tinham os cabelos brancos que hoje também trago comigo e uma paciência que somente agora começo a compreender. Gostavam de conversar, contar histórias, e sobretudo, ouvir minhas aventuras de menino na escola, peripécias com amigos e aqueles acontecimentos do cotidiano que para uma criança, pareciam extraordiários. Entre tantas lembranças, uma permanece especialmente viva.

Certa vez, meu bisavô Martinho levou-me ao pomar da Fazenda Angicos, em Caicó. Paramos diante de uma romãzeira. Ele colheu uma fruta madura, abriu-a e mostrou-me os pequenos grãos avermelhados, acomodados lado a lado.

Explicou que todos cresciam juntos, dividindo o mesmo espaço, sem que um precisasse prejudicar o outro. Cada qual preservava sua cor, sua doçura e sua identidade. Depois, entregando-me parte da fruta, disse: “Que bom seria se a humanidade fosse assim”.

Talvez eu não tenha compreendido inteiramente aquelas palavras. Crianças têm pressa para saborear os frutos; somente depois aprendem a saborear as lições. Os anos passaram. Meu bisavô partiu, e seus cabelos brancos chegaram até mim. Hoje compreendo melhor o que ele desejava ensinar: ninguém precisa diminuir o semelhante para crescer. O brilho do outro não apaga o nosso.

Talvez muitos conflitos humanos nasçam justamente do esquecimento dessa verdade tão simples. Há quem imagine que, para vencer, seja necessário derrotar alguém. A romã ensinava o contrário. Dentro dela havia espaço para todos.

Hoje, quando vejo uma dessas frutas, retorno por instantes àquele pomar de Caicó. Revejo meu bisavô Martinho e suas mãos abrindo cuidadosamente a romã. E percebo que algumas das maiores lições da vida não estavam nos livros nem nas salas de aula. Às vezes, estavam escondidas dentro de uma romã.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1960 DÓLAR TURISMO: R$ 5,4020 EURO: R$ 6,0210 LIBRA: R$ 7,0370…

2 horas ago

Laura Cardoso é velada no Centro de SP

O corpo da atriz Laura Cardoso, de 98 anos, começou a ser velado nesta terça-feira (18),…

3 horas ago

Petrobras confirma descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, no litoral do Amapá

A Petrobras confirmou nesta segunda-feira (17) a descoberta de petróleo no poço Morpho, na bacia da…

3 horas ago

Itaú Unibanco recebe autorização preliminar para ter banco múltiplo nos EUA

O Itaú Unibanco anunciou nessa segunda-feira (17) que recebeu autorização preliminar para criar um banco com…

3 horas ago

Trinta anos depois do crime, começa julgamento que vai tentar responder quem matou Tupac

Trinta anos depois do crime, começou nos Estados Unidos o julgamento que vai tentar responder uma pergunta:…

3 horas ago

De ameaça a oportunidade: como a Nestlé quer lucrar com a febre de Ozempic e Mounjaro

A Nestlé busca transformar a crescente popularidade dos medicamentos para perda de peso à base…

4 horas ago

This website uses cookies.