O MUNDO DE PERNAS PARA O AR –
A tensão que arrepia a sociedade, retalhando-a numa disputa sem fim, diz respeito a se ela deve responder a demandas, fruto de compromissos abstratos com ideais que envolvem igualdade social ou a padrões de concretas tradições políticas que criaram suas bases de sustentação. O sentimento ao confrontar a sociedade pode ser de gratidão e de compromisso de reforçá-la ou de ultraje, onde o desejo seja de destruir e transformar tudo. As respostas que ocupam nosso íntimo modelam o mundo como o compreendemos e nos dispomos a viver. O mundo se dilacera entre as raízes do Iluminismo e sua obsessão pela liberdade enquadrada pelo igualitarismo e uma visão que preza a preciosa herança cultural recebida de gerações, com um cauteloso aperfeiçoamento. A evolução do pensamento político, vindo de Thomas Paine, pensador britânico, do século XVIII, que vivenciou as revoluções francesa e americana, avançou na direção da ideologia de esquerda que combina coletivismo material com individualismo moral. O pensamento de Burke, estadista e político britânico também do século XVIII, gerou a visão da direita, com seu comprometimento com as tradições culturais, religiosas e morais, e com as instituições que sustentam essa visão de mundo, “ o gradual acúmulo de práticas e instituições de liberdade e ordem”, no dizer de Yuval Levin, em O Grande Debate. As instituições do bem-estar social avançam a partir de uma certa visão de mudanças. Paine defendeu a mudança social agarrada ao ideal igualitário de justiça, próximo a um comunalismo. Já Burke defendeu a resolução dos problemas sociais, dentro das instituições envolvidas, como família, sociedade civil, grupos religiosos e o mercado. Os conflitos da política moderna são travados tendo essas visões subjacentes em relação a progresso e tradição, liberdade e obrigação, liberalismo econômico e socialismo. Uma coisa é certa, a filosofia move o motor da história, principalmente nos momentos de profundas mudanças sociais, como o período que atravessamos. Alexis de Tocqueville, pensador francês do século XIX, escreveu “ creio que, em qualquer época, eu teria amado a liberdade, mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la”. O embasamento moral do coletivismo carrega forte apelo, mas sua aplicação prática resultou numa ética totalmente diversa dos ideais morais que o nortearam. A insensibilidade e o desprezo pela vida humana foi a regra dos regimes totalitários que implantaram o coletivismo, e os resultados da repartição equitativa que buscavam atendeu apenas aos interesses da elite dirigente. “No coletivismo não há lugar para o amplo humanitarismo, mas apenas para o estreito particularismo do totalitário”, diz Hayek. Ben Shapiro, em o Lado Certo da História, escreve que “para os pensadores do Iluminismo a ciência destronara o homem de seu lugar, no centro do universo, mas a razão poderia restaurá-lo ao centro do sentido”. Não foi isso que aconteceu, Voltaire escreveu “as histórias antigas são apenas fábulas admitidas, quanto às modernas são um verdadeiro caos que não se pode destrinçar.” A cultura do tempo que vivemos não procura formar pessoas plenas, mas obcecadas por si mesmas, a autoestima como centro de tudo desqualifica os valores pautados na religião judaico-cristã, na tradição grego-romana e no liberalismo econômico. Ben Shapiro vai além “sendo a autorrealização o bem maior e a autoestima o bem fundamental, qualquer impedimento estrutural ao seu alcance precisa ser afastado”, o compromisso é então virar o mundo pelo avesso, derrubar o sistema. A visão cultural da esquerda, diante da realidade, que é mais dura que a utopia, levou à raiva e ao ódio, a fantasia de uma nova humanidade, continua a ludibriar o mundo. Olhando à nossa volta, diz Roger Scruton, não “devemos nos surpreender com o enorme fardo da infelicidade humana”, nem com a quebra de confiança e separação entre as pessoas. “A confiança na razão e a crença no valor individual estão sob ataque” diz Shapiro. Muitos pensam que a felicidade pede que se descarte a verdade e a realidade.
Geraldo Ferreira Filho – Presidente do SinmedRN
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