O INSPETOR DE QUARTEIRÃO E OS FLANELINHAS – Alberto Rostand Lanverly

O INSPETOR DE QUARTEIRÃO E OS FLANELINHAS –

​Analisando compêndios que relatam a história do Brasil, pode-se constatar serem, algumas profissões que tiveram seu apogeu em determinada época, hoje, praticamente inexistentes.

​“Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Parodiar o sol e associar-se à lua”. Com estes versos, Jorge de Lima descreveu o profissional que, desde o século XIX, diariamente acionava a chama das luminárias, para quebrar a escuridão das noites.

​Os acendedores de lampiões iniciavam seu trabalho nos finais de tarde, com uma vara especial dotada de esponja na ponta. Ao raiar do sol, apagavam-nas, limpavam os vidros e reabasteciam as lâmpadas, quando necessário.

​A partir de 1808, com a chegada da família real ao Brasil, vieram também as carruagens, os coches e cabriolets, veículos que eram utilizados pelos mais abastados. Para o brasileiro, em sua quase totalidade, a única maneira de utilizar os novos meios de transportes era conseguindo o emprego de cocheiro. Nas décadas seguintes, a profissão ganhou mais espaço, com o surgimento de novas opções de deslocamento, como veículos coletivos e carroças.

​Neste mesmo período, surgiu a figura do Juiz de Paz que, eleito para um mandato idêntico ao dos vereadores, possuía atribuições judiciárias e policiais no bairro onde habitava. Era prerrogativa sua, indicar o Inspetor de Quarteirão, que detinha a responsabilidade de zelar pela ordem e sossego de todos os que residissem na mesma quadra onde se encontrava sua própria moradia.

​Enquanto ao Juiz de Paz competia conceder passaportes, realizar exames de corpo de delito e tomar conhecimento de novos moradores no distrito sob sua jurisdição, o Inspetor de Quarteirão era uma autoridade na porta das casas. Deveria ter mais de 21 anos, sabendo ler e escrever, uma raridade, àquela época.

​Os tempos passaram. Com o advento da energia elétrica, desapareceram os Acendedores de Lampiões. Uma pena que a Eletrobrás ou Equatorial não tenham a mesma responsabilidade que possuíam aqueles agentes da luz. Os cocheiros foram substituídos por motoristas de ônibus, taxi, transporte clandestino e, até particular.

Porém, as figuras do Juiz de Paz e dos Inspetores de Quarteirão parecem ter sido arquivadas nas prateleiras do tempo, ou, melhor, foram substituídos por funções que representam a antítese do que eles praticavam: As flanelinhas e os ladrões de esquina.

​Enquanto, de forma delituosa, os flanelinhas exigem pagamento por um serviço que nunca lhes foi solicitado e, quando a gorjeta não lhes é entregue, a integridade física do motorista e do carro se expõem a riscos imensos, os ladrões de ponta de rua, como que utilizando uma simbólica roleta russa, se encontram à espera de suas vitimas, para lhes usurpar relógio, celular, carro e, até a vida.

​Se, na antiguidade, a poesia ditava as prerrogativas de determinadas funções, hoje, uma minoria, as vezes bêbada e drogada, é que estabelece essas normas, maculando o direito do livre arbítrio do cidadão. Tudo isto, na cara das autoridades que parecem nada ver e, em consequência, nada fazem.

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,0750 DÓLAR TURISMO: R$ 5,2770 EURO: R$ 5,8100 LIBRA: R$ 6,8190 PESO…

10 horas ago

Petróleo desacelera após Trump desistir de cobrar pedágio no Estreito de Ormuz

Os preços do petróleo perderam a força no início da tarde desta terça-feira (14), após…

11 horas ago

França e Espanha se enfrentam na 1ª semifinal da Copa do Mundo 2026; veja horário

As semifinais da Copa do Mundo 2026 têm início nesta terça-feira (14) com o jogo entre França e Espanha. Onde assistir à…

11 horas ago

Foragido da Justiça morre em confronto com a PM durante resgate de homem sequestrado em Mossoró

Um foragido da Justiça morreu após trocar tiros com policiais militares durante o resgate de…

11 horas ago

Ambulantes e barraqueiros de praia ficam obrigados a portar apitos para sinalizar afogamentos em Natal

Uma lei publicada na edição do Diário Oficial do Município (DOM) desta terça-feira (14) obriga…

11 horas ago

Saúde do RN acumula dívida de quase R$ 700 milhões em restos a pagar, aponta MP

Um despacho do Ministério Público (MPRN) que embasa uma audiência com representantes das secretarias estaduais…

11 horas ago

This website uses cookies.