O GOVERNO BOLSONARO DÁ OS PRIMEIROS PASSOS – Ney Lopes

O GOVERNO BOLSONARO DÁ OS PRIMEIROS PASSOS –

Não há dúvidas sobre a urgente necessidade de reformas inadiáveis. O déficit da Previdência realmente existe, porém é preciso debulhar as razões e motivos de sua existência, para “dividir” sacrifícios e evitar injustiças, com aposentados, pensionistas, servidores públicos e empresários honestos, que não se beneficiam da sonegação desenfreada e por isso não podem “pagar o pato” sozinhos.

Tais circunstâncias justificam que as reformas sejam graduais.

É absolutamente necessário levar em conta os impostos criados na Constituição, que não chegam aos cofres previdenciários. O governo desconhece o artigo 195 da Constituição e exclui da receita previdenciária, altíssimos valores recolhidos para manter a “seguridade social”, tais como, Contribuição Social Sobre Lucro Líquido (CSLL), Contribuição sobre o Financiamento da Seguridade Social (CSLL), do PIS-Pasep e a receita de concursos de prognósticos.

Como se não bastasse, existe ainda a DRU (Desvinculação de Receitas da União), cuja alíquota superior a 30% “garfa” anualmente milhões de reais dos cofres da Previdência.

Cabe a pergunta: “Se a previdência é deficitária, o governo está retirando 30% de onde? Como um sistema previdenciário, tido como quebrado, poderia ceder 30% para outros fins?”.

Além disso, constatam-se mais de 35 milhões de trabalhadores na informalidade, que significa quase R$70 milhões não recolhidos à previdência; apropriações indébitas como a recente desoneração (isenção) destinada a reduzir o desemprego, que resultou no desvio de mais de R$ 600 bi, quando o desemprego aumentou; e os governos que não recolhem as sua cotas, até aquelas já descontadas dos servidores.

Tais desvios não podem ficar “por debaixo do pano”. Alguém tem que pagar. Ou será que o “mercado” veda, sob o pretexto de que “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”?

A conclusão é que as reformas terão que ser graduais. Nesse debate não cabe solução de “mão única”. Trata-se de seres humanos, que não podem ser transformados em “números” de falsas planilhas estatísticas, com o objetivo final do lucro, qualquer que seja o preço social.

Infelizmente, o que se vê são os idólatras do “mercado”, alegando o falso “déficit”, com o temor de aplicação de penalidades e maior controle de privilégios, isenções, incentivos, diferimentos de impostos, subsídios, juros diferenciados em empréstimos dadivosos, concedidos sem fiscalização e retorno social comprovado.

A questão fundamental na reforma previdenciária será a definição da idade mínima, pelo aumento da expectativa de vida, que exige do legislador o cuidado em manter o regime universal, contributivo, solidário e baseado em princípios redistributivistas (artigo 40 da CF).

Fala-se em simpatia pelo modelo de capitalização individual (poupança obrigatória, entregue a fundos privados), implantado por Pinochet em 1981 no Chile, sem encargos para empregadores e o estado. Esse regime não deu certo. O “arrocho” no valor das pensões e aposentadorias chilenas já causa até aumento do número de suicídios.

Ainda sobre reformas, outra insensatez à vista seria a extinção da justiça do trabalho, que é patrimônio do sistema jurídico brasileiro, da mesma forma que a justiça eleitoral e militar.

Nos Estados Unidos, ao contrário do que se alega, tramitam inúmeras ações de natureza trabalhista, além da existência de rígido mecanismo legal, que impõe o cumprimento dos acordos coletivos de trabalho (dissídios), com aplicação de sanções (penais e civis) superiores às do Brasil. No verdadeiro capitalismo é assim.

Sabe-se da necessidade de modernização das regras trabalhistas.

Em 2001 fui o relator da primeira tentativa de flexibilização da legislação trabalhista, aprovada na Câmara dos Deputados. Além de manter (sem exceção) todos os direitos sociais, a “única” alteração que propus á época foi nova redação para o artigo 618 da CLT (recomendação da OIT), a fim de garantir a prevalência da negociação coletiva sobre o legislado, favorecendo o trabalhador, através da concessão de direitos e vantagens não previstos em lei.

Nas decisões de governo, o Presidente Bolsonaro certamente levará em conta, não ter sido eleito apenas por “conservadores radicais”. Ele ganhou pelo risco de novo equívoco e terá que “equilibrar” e conciliar a voracidade do “mercado”, com os direitos fundamentais de milhões de cidadãos, que não nasceram com a vocação do lucro privado.

Se for para valer a afirmação do Presidente de que, quem entende de política é ele, o princípio das reformas não poderá ser “o mercado em primeiro lugar”, mas sim, “O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. Alias, o presidente Bolsonaro como deputado agiu nessa linha e a formação militar brasileira não aceita outra alternativa.

 

Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federalnl@neylopes.com.br www.blogdoneylopes.com.br
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,2170 DÓLAR TURISMO: R$ 5,4150 EURO: R$ 6,2280 LIBRA: R$ 7,1970 PESO…

16 horas ago

Em nota, Toffoli diz que eventual envio do caso Master à 1ª instância só será decidido após conclusão das investigações

O gabinete do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou nesta quinta-feira (29) uma…

17 horas ago

Clínica veterinária é condenada após morte de gata por suspeita de intoxicação medicamentosa no RN

Uma clínica veterinária e uma fornecedora de medicamentos veterinários foram condenados após a morte de…

17 horas ago

Resultado da chamada regular do Sisu 2026 está disponível; saiba como consultar

O resultado da chamada regular do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2026 foi divulgado na…

17 horas ago

Influenciadores expõem pedidos em nome do BRB para tratar do caso Master nas redes

Influenciadores postaram nesta quarta-feira (28) e-mails enviados em nome do Banco de Brasília (BRB) com a…

17 horas ago

Astrônomos encontram planeta semelhante à Terra com 50% de chance de ser habitável

Astrônomos descobriram um novo planeta do tamanho da Terra e com chance de estar em…

17 horas ago

This website uses cookies.