O FESTIVAL FRANCÊS –

Tenho gostosa lembrança da época em que eu era um razoável cinéfilo. Frequentava mesmo os cinemas de então e procurava estudar amiúde a coisa.

Lembro-me de quando, cursando mestrado em São Paulo, pelos idos de 1994 e 1995, era assíduo no saudoso Espaço Banco Nacional de Cinema, na Rua Augusta, uma casa inteiramente dedicada ao que apelidamos de “cinema de arte” ou “cinema cult”. Cheguei ali a fazer um curso – acho que de “história do cinema”, pois comemoravam-se os 100 anos da invenção dos irmãos Lumière – com o craque Celso Sabadin, à época apresentador e crítico de cinema da Rede Bandeirantes de TV. Diletantíssimo dos melhores.

Teve também o período “londrino”, quando do meu doutorado, em que frequentava, numa das abas da badalada Leicester Square, o Prince Charles Cinema, que se intitula “The Home of Cult Film” na capital do Reino Unido. Ali via, a preços módicos, em duas pequenas salas (285 assentos “downstairs” e 104 “upstairs”), cinema de qualidade, os clássicos da 7ª arte, assim como algumas produções hollywoodianas mais recentes, mas que já estavam fora de cartaz nas grandes salas da cidade. E, claro, “gastava” várias de minhas tardes no British Film Institute – BFI, à margem sul do Tâmisa (Southbank), mais precisamente abaixo da Waterloo Bridge, a joia da coroa quando se trata de cinema em Londres. Esse complexo especialmente dedicado ao cinema britânico, com suas salas de exibição, sala multimídia, biblioteca, loja, restaurantes e cafés, era, e ainda o é, muito mais do que muito.

Devo confessar, contudo, que ultimamente me afastei das salas de cinema. Acho que foi uma consequência da nossa vida bem mais corrida, somada às novas tecnologias/meios de comunicação de massa, como as plataformas de streaming e a Internet em geral, que, mais cômodas, “roubam” bem mais do nosso tempo.

Por isso fiquei contentíssimo com o convite dos amigos Eduardo Gurgel e Ernesto Guerra, respectivamente presidente e diretor da Aliança Francesa de Natal, para assistir, no Cinépolis/Natal Shopping, à abertura local do “Festival Varilux de Cinema Francês – 2024” (de 7 a 20 de novembro), que já é tido como o maior festival de cinema francês do mundo. Ocorre anualmente em inúmeras salas de cinema Brasil afora. O público, nesses vários anos de festival, já é contado na casa do milhão. Foi uma noite inspiradora, quando assistimos à comédia dramática “Apenas alguns dias” (“Quelques jour pas plus”, 2024), que trata, de forma muito leve, de um tema muito pesado, a imigração de refugiados na Europa.

Ainda consegui, nestes dias de festival, assistir à película “Mega cena” (“Heureux gagnants”, 2024), uma comédia de “humor ácido”, “cínica e deliciosamente sombria”, como elogiosamente a descrevem Le Figaro e Le Parisien. Assim como aos documentários, cujos títulos são autoexplicativos, “1874, o nascimento do impressionismo” (“1874, la naissance de l’impressionnisme”, 2024) e “O roteiro da minha vida – François Truffaut” (“Le scénario de ma vie – François Truffaut”, 2024), este último literalmente um “filme sobre filmes”.

De toda sorte, não foi bem a qualidade dos filmes que me encantou por estes dias. Foi algo até mais simples. Por algumas poucas horas, mergulhado na escuridão da sala de cinema, senti-me o outrora jovem diletante estudante de história do cinema, quando todos de minha afeição estavam vivos e bem. Esqueci que o tempo passa. E achei/sonhei que poderíamos trapacear a natureza por mais alguns instantes.

 

 

 

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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