O DESMONTE DO D.E.R –

Fui engenheiro do quadro do Departamento de Estradas de Rodagem-RN. Comecei em 1967 quando cursava o segundo ano da Escola de Engenharia. Queria ser engenheiro mecânico, mas devido à falta do curso em Natal tive que cursar engenharia civil, que era o único curso oferecido.

Chegando ao Departamento encontrei um grupo de engenheiros jovens e idealistas que juntamente com os mais antigos, alguns meus professores na escola, me fez despertar o interesse pela construção de estradas e o zelo pelo patrimônio público. O D.E.R era uma repartição tentando se organizar e valorizar o seu pessoal tanto em conhecimentos como em remuneração,  tínhamos estímulos para tais progressões.

Formei-me no final dos anos 70, e logo em 71 assumi a chefia da residência de João Câmara,  substituindo um colega que ia fazer curso de especialização no DNER hoje DNIT, no Rio de Janeiro. Todos os anos iam três engenheiros fazer cursos de especialização, no Brasil ou no exterior. Neste sentido foi construído um centro de treinamento em Mossoró, que só não capacitava engenheiros, mas todo quadro daquela autarquia, hoje não existe mais. Tínhamos equipamentos, uma oficina central muito boa, uma oficina em cada residência de interior que recebia o nome de Distrito Rodoviário, dividido por região em número de sete. Havia também um laboratório de estudos onde eram feitos todos os ensaios para construção de pontes e estradas e outras obras menores.

A infra-estrutura rodoviária foi duramente atingida pelo declínio geral dos investimentos públicos. Até meados dos anos 80, o Fundo Rodoviário Nacional era a mais importante fonte de recursos para financiar investimentos na malha rodoviária. Após sua extinção em 1988, não foram criadas alternativas de financiamento sustentado sequer para os trabalhos rotineiros de conservação. Além disso, a transferência da base de incidência dos recursos tributários destinados a financiar a malha rodoviária federal para os estados e municípios – em decorrência da Constituição de 1988 – obrigou os governos a buscarem alternativas.

Hoje o D.E.R. acabou ou está se acabando. As residências não funcionam ou faz de conta que funcionam, as Oficinas Centrais praticamente acabadas e sendo parte de suas instalações cedidas para outras repartições, o prédio onde funciona a sede foi dividida ao meio, funcionários com baixos salários e desmotivados.

Na parte técnica quem anda por aí ver o reflexo. Estradas sem conservação, sem acostamentos, a vegetação tomando todo o espaço, sinalização inexistente. Enquanto isto temos dinheiro para  construir um novo estádio de futebol para ver jogar três seleções africanas.

Quero aqui ressaltar que a atual diretoria não tem culpa desta situação, pois quando ali chegou “ o defunto estava morto”. Já que não somos um povo de atitude, só nos resta rezar quando fomos viajar por aí.

 

Guga Coelho Leal – Engenheiro e escritor, membro do IHGRN

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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