O CINEMA E O RÁDIO: TEMPOS MAIS PUROS – Alberto da Hora

O CINEMA E O RÁDIO: TEMPOS MAIS PUROS –

Nos anos 50 e morando no subúrbio, nos restavam poucas opções de lazer. A praia era distante, o estádio de futebol e os auditórios das rádios, também. Clubes, nem pensar. Eram para as classes média e alta. Mas ninguém sentia falta de alguma tertúlia, uma soirée ou um baile de carnaval nos locais onde dificilmente poderíamos entrar.

O cinema, em primeiro lugar, e o auditório da Rádio Poti foram os responsáveis pelos mais belos, poéticos e deslumbrantes momentos de diversão e lazer que nossos pais nos proporcionaram, mesmo com dificuldades financeiras.

A nossa preferência eram pelos filmes de faroeste, que para nós tinham mais graça. Quem é que queria perder as aventuras de Durango Kid, Rocky Lane, Roy Rogers, Gene Autry, Bill Elliot, Rex Allen, Johnny Mack Brown, Hopalong Cassidy, Rod Cameron, Cisco Kid?

Eram alguns dos nossos preferidos. Heróis dos garotos. Ninguém estava interessado nos grandes diretores, nos grandes atores, nas obras-primas que fizeram a história do cinema; ou nos western clássicos que até hoje fazem a delicia dos cinéfilos.

Bastavam o “mocinho” – ou “rapaz”- a moça em perigo, o bandido mal-encarado, uma cavalgada de perseguição, um tiro, uma queda, alguns socos e tudo resolvido num indefectível, previsível e aguardado happy end. Pra que melhor?

No Cinema São Luiz íamos ver algum filme de aventura e, principalmente, acompanhar a “série” que estava em cartaz. Lembro-me d’O Falcão da Floresta, Os Tambores de Fu-Man-Chu, O Homem do Espaço, As Aventuras do Capitão Marvel, Os Perigos de Nyoka, O Arqueiro do Rei. E tinha muito mais.

Sem falar nas aventuras brasileiras de Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Catalano, Ankito, José Lewgoy, Cyl Farney, Anselmo Duarte, Fada Santoro, Eliana, conjuntos musicais, cantores e uma infinidade de vedetes que iluminavam as telas com enormes coxas e pernas esculturais embalando desejos e sonhos juvenis.

A Rádio Poti, nos finais de semana, apresentava três programas de auditório, dos quais de dois éramos habitués ocasionais: o Domingo Alegre, comandado por Genar Wanderley, pela manhã, e o Passatempos B-5, por Geraldo Fontenelle, à noite. A este, meu pai levava minha mãe. Aos sábados, à tarde, o Vesperal dos Brotinhos. Era uma produção considerável para uma emissora de uma cidade como Natal. Íamos, às vezes, ao Vesperal e outras vezes ao Domingo Alegre. Entre os programas de estúdio, as novelas e o Beco sem Saída, um programa humorístico que fez história, eram os nossos preferidos.

Aos domingos e quartas-feiras, acompanhar um jogo pelo rádio. ABC, América, Alecrim, Riachuelo, Santa Cruz, Atlético, Ferroviário eram as equipes semi amadoras que desfilavam no campo do Estádio Juvenal Lamartine com a narração empostada e enfática dos nossos locutores e repórteres.

E no auditório, em quase êxtase, ouvíamos Glorinha Oliveira, Lourdinha Lopes, Paulo Silva, Agnaldo e as irmãs Rayol, Chiquinha da Sanfona, Rinaldo Calheiros, Zezé Gomes, Paulo Tito, Rubens Cristino, Armando Marçal, Luiz Favela, Pedro Viana, Idalmo César, Gurgel Filho, Roberto Ney, Zito Borborema, os trios e conjuntos vocais, cantarem os maiores sucessos de um repertório popular quase sagrado.

As moças de blusas recatadas, as saias plissadas, os sapatos de saltos baixos, na alegria juvenil de se verem cara-a-cara com os seus ídolos. Muitas, como a minha mãe, guardavam as fotografias que se publicavam nos jornais, colecionando em álbuns as poses dos artistas.

As novelas, produzidas aqui mesmo, nos conduziam a um mundo mágico, pontilhado de personagens invisíveis e seus intérpretes maravilhosos: Sandra Maria, Glorinha Oliveira, Lourdes Nascimento, Nilson Freire – esposo de Sandra, Clarice Palma, Genar Wanderley, Iêdo Wanderley, Luiz Cordeiro, Fonseca Junior, Lourdinha Lopes, Cascudo Rodrigues, Nice Fernandes, Eliete Regina, Teixeira Neto, Vanildo Nunes e tantos outros do cast de radioatores da Rádio Poti. A maioria destes atores também figurava no elenco do Beco sem Saída, humorístico que fazia a delícia dos sábados à noite e reprise nos domingos, ao meio dia.

Com o perdão da nostalgia, eu acho que vivíamos tempos mais puros.

 

Alberto da Hora – escritor, cordelista, músico, cantor e regente de corais

 

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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