NUNCA DUVIDE DE UMA MULHER DE ALL STAR – Flávia Arruda

NUNCA DUVIDE DE UMA MULHER DE ALL STAR – 

Numa live literária pernambucana para a qual fui convidada – Cabaré do Assuero – um dos participantes, Maurino, fez a seguinte observação: Assuero, onde é que você encontra essas pérolas? Flávia é linda! Absolutamente fascinante!

Assuero se antecipou e respondeu: Vez por outra, mergulho no fundo do mar e acho pérolas, joias raras transportadas em naus desbravadoras que levavam sonhos embalados por ondas provocadas pela força da lua que, com sua face oculta, me permite enxergar deusas que vagueiam o imaginário.

A sabedoria de Atena não me livra da influência de Afrodite. Achei Nemesis, mas ela ainda não tem agenda disponível para falar de justiça. Flávia era, ou melhor, Hera, dominou o Olimpo na quarta e continuou catando outras belezas brejeiras simples, sensuais, sinceras, seguras, simpáticas… Garimpando se encontra ouro!

Ser comparada a um mito grego é, sem dúvidas, de perder o fôlego, a fala, as ideias, o pensamento. É algo estrondoso para o ego tal comparação com a deusa de cabelos dourados – descrição de Hera por Baquílides. Já Homero se refere a ela como a deusa dos alvos braços. Ressalto a força da deusa mulher, Hera, que lutou usando todos seus poderes para defender aquilo em que acreditava, desde chuvas fertilizantes a tempestades devastadoras, com o ímpeto que conduzia sua fúria enfrentando os deuses e heróis do Olimpo.

Essa luta incansável de uma deusa por seu espaço me transfere para os dias atuais, para as nossas lutas na condição de mulher. Não me digas que eu não consigo. Eu consigo. Eu posso. O espaço pelo qual tenho lutado está sendo construído, tijolo por tijolo, quebrando rebocos velhos, reparando mosaicos que se desgastaram com o tempo, abandonando, a duras penas, as minhas zonas de conforto, vencendo meus medos e preconceitos, quebrando tabus e rompendo com paradigmas.

Os ajustes que tenho feito no espaço que desejo habitar não se moldam às pressões daquilo que não me cabe. Hoje, só visto, ouço, bebo, como, engulo, vejo, escrevo, leio, amo, sinto e vivo aquilo que me representa de fato e de direito. Este, por sinal, tem me rendido muito suor para usufruir.

Na última sexta-feira foi mais um desses dias, mais um dia de construção do espaço que quero habitar. Depois de tentativas frustradas em convidar meus pares para me acompanharem a um local onde aconteceria uma apresentação, resolvi que iria sozinha. Em outros tempos eu teria desistido. Os motivos seriam os mais variados: vergonha de estar desacompanhada, medo por acreditar em ser o sexo frágil, insegurança com o novo, e tantos outros motivos inventados e construídos ao longo dos séculos.

O local estava com poucas pessoas cumprindo, por causa da pandemia, os protocolos sanitários. Procurei uma mesa mais reservada que me proporcionasse uma visão ampla do local. Sentei-me sozinha, levantei a mão e fiz menção ao garçom. Pedi uma cerveja e descansei o celular sobre a mesa. Do outro lado do salão, no mesmo sentido da mesa onde eu estava, de frente para mim, havia um jovem rapaz também sentado sozinho e com uma cerveja sobre a mesa. Todas as vezes que meu olhar passeava pelas pandas de lá eu percebia que ele me fitava, até o instante que ele fez um gesto perguntando se poderia vir ao meu encontro. Acenei com a cabeça positivamente.

Ele sentou na cadeira ao lado e seus olhos sorriam. Retirou a máscara e falou: Não existe nada mais sexy do que uma mulher de All Star… E reforçou: Uma mulher, e não uma garota, entrando num barzinho sozinha, de All Star e pedindo uma cerveja, não há nada mais sexy.

Eu não me contive e dei boas risadas por tudo o que ele estava descrevendo. Arrumei-me na cadeira na tentativa de me concentrar e perceber a mulher que ele descrevera. Então, eu me vi Hera de vestido solto estampado, All Star branco – Homero teria dito: A deusa dos alvos braços – e cabelos esvoaçantes ou, como diria Baquílides – cabelos dourados. Sim, uma deusa poderosa, empoderada, que deixou seus medos do lado de fora do salão e preencheu seu espaço com a sua maior arma: a beleza do amor-próprio.

Depois de ouvir, atentamente, todas as impressões do jovem rapaz, que já sorria com os olhos e com os lábios, objetei para ele, olhando com firmeza em seus olhos: Nunca duvide de uma mulher de All Star.

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora do livro “As esquinas da minha existência”

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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