O bom humor e o nonsense são remédios contra os absurdos que a vida nos impõe ver e ouvir. O nonsense é jogo espiritual e tem certa graça porque estabelece uma outra ordem com diferente coerência. Leva a pensar no que poderia ser se não fosse o que é.
Non-sens em francês tem maior abrangência.
Millor Fernandes, melhor do que ninguém, faz a poesia do nonsense:
Se eu tivesse uma locomotiva
A traria para a minha solidão de monge
E enquanto ela ficasse aqui passiva
Eu apitaria lá longe.
O trem afasta solidões.
Houve um desafio de cantadores norte-rio-grandenses. Ercílio Pinheiro, mossoroense, estudioso, culto mesmo, sabedor de nomes e datas históricos, resolve embaraçar Xininim, cantador analfabeto de Nova Cruz e que criava qualquer resposta. Na hora. Ercílio faz versos perguntando quem foi o inventor da locomotiva. Xininim imagina um nome e função no mesmo momento:
O homem que fez o trem
Se chamava João Lixande
E como não tinha ferro
Inventou mesmo de frande
E serviu pra carregar
Jerimum do Rio Grande…
Como, nas cantigas de roda infantis, valem as palavras. Valem a sonoridade, rimas, ritmo, a estrutura mesma da palavra. As mnemonias são exemplos agradáveis. Destinam-se a ensinar, para fixar na memória, números, datas, nomes, tudo o que deve ser decorado. Muitas vezes, não fazem o sentido comum. O importante é a rima. Quem não se lembra da mnemonia que ensina a primeira dezena:
Um, dois – feijão com arroz
Três, quatro – feijão no prato
Cinco, seis – chegou minha vez
Sete, oito – comendo biscoito
Nove, dez – vou comer pastéis.
A criança associa ter fome aos números e aprende brincando.
O ludismo faz parte da nossa vida, da criança que fica em nós até a hora da nossa morte. Às vezes, há um rompimento da lógica, da ordem esperada. Rimos de uma possibilidade. Até os grandes escritores fizeram poesia, poemas de nonsense, o poema-piada. Acho excelente esta de Murilo Mendes:
Tenho duas rosas na face
nenhuma no coração,
do lado esquerdo da face
também costuma dar alface
do lado direito não.
Nonsense cria uma ordem inesperada, uma liberdade, mas não é caótico, desordenado, não se aproxima do monstro. Estabelece um raciocínio diferente, como por exemplo, definição digital de Guimarães Rosa: “Os dedos são anéis ausentes”.
O tema é inesgotável. Os poetas Zé Limeira, o nosso José Bezerra Gomes, os poetas de cantoria se prestam a estudos universitários. A base do que fazem é a imaginação.
Meu neto Lucas estava sozinho, com varetas na mão, quando eu cheguei. Gritou feliz:
– Ganhei, vovô, ganhei!
– Ganhou de quem?
– Da minha imaginação. Joguei com ela. E ganhei.
Com tudo isso, só posso dar razão ao mais lúcido observador social, Shakespeare: “A verdade é mais estranha que a ficção”.
Diógenes da Cunha Lima – Advogado, Professor, Poeta, Escritor, Presidente da Academia Norte-riograndense de Letras diogenes@dcl.adv.br Autor de “Natal – Uma Nova Biografia”.
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