MUNDO NOVO –

 

Se existe algo de positivo para aqueles de quarentena forçada por conta do coronavírus – além das tarefas agradáveis ou chatas decorrentes do ócio -, é a oportunidade de poder meditar e tentar compreender, sob diferentes aspectos, as razões de tamanha desgraça para a humanidade.

Eu, particularmente, pude refletir e ainda reflito e temo as consequências do agravamento desse flagelo sobre a parcela de habitantes desassistida do nosso país, algo próximo de 13,6 milhões de favelados instalados em áreas insalubres nas periferias das grandes cidades. Medito e temo o efeito de crises, em cascatas, nas comunidades pobres, onde até a água é escassa ou inexiste.

Medito e temo sobre a reação da população mais vulnerável do nosso Brasil, quando constatar que as famílias, os vizinhos e os amigos contaminados estão sem tratamento médico de qualidade ou, ao perceber, que nada mais pode ser feito por eles e para eles, além do pouco oferecido.

Vi, sem querer acreditar, imagens de cortejos fúnebres na Itália, onde cadáveres eram transportados amontoados em caminhões para fornos crematórios – isso num país do primeiro mundo -, e imaginei a cena em comunidades do país sem o básico da aparelhagem de saúde para fazer frente ao vírus.

A pandemia que vivenciamos se assemelha a décima praga do Egito citada no livro do Êxodo. Na narrativa bíblica, as vítimas eram os primogênitos de famílias egípcias; aqui e agora, os mártires vicejam dentre nossos pais e avós acima dos 60 anos de idade.

Nada de querer correlacionar fatos da antiguidade com o período contemporâneo. Mas, se assim ocorresse, teríamos um mundo novo sob o domínio de jovens. Suponho que eles governariam com uma visão global diferente e melhor contextualizada devido as lições tiradas do combate contra o vírus letal, ao custo de muita amargura, perdas e ranger de dentes.

Talvez a nova mentalidade eliminasse distorções em voga no planeta, criando proporcionalidades justas, evitando que tantos tenham tão pouco em relação a poucos com bens em demasia; talvez atentassem para a necessidade de saúde, educação e moradia equânimes para todos, indistintamente; talvez se incutissem do raciocínio de que o ser humano é o causador dos seus próprios infortúnios – e se o Covid-19 escapuliu de experimentos em laboratório?

No mundo novo poderia viger a Lei de Talião, a de que uma pessoa que ferisse outra deveria ser penalizada em grau semelhante, como forma de corrigir os malefícios contra a integridade física e moral dos cidadãos – dente por dente, olho por olho. Talvez descobrissem que todos os antagonismos do mundo, todos os conflitos e todas as misérias se originam do orgulho, do egoísmo e da vaidade.

São apenas reflexões sem convalidações. Sonhos atrelados ao desejo de viver num mundo novo, livre de animosidades, da falta de sensibilidade, da ânsia por poder e sem o coronavírus.

Embora afiancem que na vida tudo passa, que tudo passará, sinto que o tiquetaquear do meu relógio biológico não define apenas os horários do dia, marca também o tempo de vida que me resta sem que eu possa desfrutar das transformações advindas desse admirável mundo novo, porém, me satisfaz a esperança de que as pessoas de quem eu gosto usufruam das benesses dele.

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro e Escritor

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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