Diogenes da Cunha Lima

Apesar da igualdade estabelecida por lei, é restrito o acesso aos direitos sociais pela mulher brasileira.  Quem nasce mulher, vive ainda submetida a descriminação pelos preconceitos.  É verdade que estão ocorrendo mudanças, mas mudanças lentas.

Uma minoria de mulheres ocupam cargos, exercem funções superiores.  A maioria das que trabalham ganham menos que os homens.

A nossa herança cultural, beleza da nossa diversidade, não conferiu igualdade. Originalmente a índia serviu para o prazer sexual do branco e procriação;  a mulher negra destinava-se a cozinha, aos afazeres domésticos e ao prazer do seu dono; as brancas que chegavam vinham de tradição ibérica da mulher inferiorizada, 700 anos de dominação árabe.

O refrão, adágios, ditados, ditos são a sabedoria popular condensada, são usados na linguagem coloquial, uso comum do povo, repetitivo e  inalterado.  No Brasil eles apontam para uma intolerância prévia da condição feminina.  Advertem, aconselham, recomendam contra a mulher, para o perigo que é a mulher. O mais grave é que não têm autores conhecidos, são anônimas, com valores metafóricos e muita vitalidade.

Ouvi em Nova Cruz no refrão:  “Mulher, vento e ventura ligeiro se mudam.”  É uma acusação de volubilidade e insegurança da mulher.  O refrão me lembra uma área de Verdi (1813-1901), a sua obra-prima Rigoletto:  “La donna è móbile / qual piuma al vento.”  Conheço muita mulher firme, que não é móvel como pluma ao vento.

Os ditados brasileiros são, na grande maioria acusatório da mulher, denegridores da condição feminina.  Assim, é possível anotar alguns. “Mulher boa, ave rara”, quer dizer quase todas são más.  “Mulher não casa com sapo porque não sabe qual é o macho”, significa que não sabe escolher e qualquer um lhe serve.  “Mulher sabida é mulher perdida”, não se deve deixar que a mulher seja culta.

A “falsidade” da mulher é indicada também nos versos populares.  A quadra foi recolhida por Helenita Hollanda: “A mulher, por natureza, / Não pode ter fé segura. / Quanto mais fala, mais mente, / Quanto mais mente, mais jura”.

Os ditados já estão nascendo com preconceitos.  “Mulher no volante, perigo constante”.  Advertência aos pedestres e motoristas masculinos.  “Mulher magra sem ser de fome, foge dela que te come”,  a rima mostra o ideal de que seja gorda, doméstica, sem academias de ginásticas. “Mulher de cego, para que se enfeita”, estabelece a desconfiança à fidelidade feminina.

Nos dicionários de sabedoria popular noventa por cento dos textos sobre mulheres são depreciativos, noventa por cento dos textos sobre homens são edificantes.

Os adágios, provérbios, refrãos não se refere à importante função social da mulher.   Usam também de elementos de memorização:  rima, métrica, aliteração.  Muitos tem origem anedótico, nunca aplaudem, antes fustigam, denunciam.  São fenômenos da nossa linguagem e refletem, infelizmente, o modo de ser brasileiro.

O ponto de observação estabelece o conceito que se tem.  Um exemplo:  o observador pode ver Maria Madalena na Bíblia por dois modos opostos.  Uma, foi uma mulher tão fantástica, distinguida por Jesus, que foi a primeira testemunha de Sua ressurreição.  A outra, foi a mulher que tinha sete demônios (Mc. 16.9, Lc 8.3).  Ou seja:  ou Maria Madalena foi a alegria, companheira de Jesus, ou foi a mulher que fazia festa aos sete diabos.

Para cumprir o preceito constitucional da igualdade dos sexos, devemos abolir toda a linguagem da discriminação.  Com sabedoria, mesmo sepultando a “sabedoria dos homens”.

Diogenes da Cunha LimaEscritor, poeta e presidente da Academia de Letras do RN

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