MULHER – Heraldo Palmeira

MULHER –

A gente sempre gosta de inventar datas. É simpático, faz efeito, marca.

Tudo teria tido origem na suposta tragédia numa fábrica de tecidos em Nova York, exatamente em 8 de março de 1857, onde cento e vinte e nove tecelãs morreram carbonizadas por culpa e covardia de homens, patrões que teriam incendiado a própria tecelagem onde as mulheres estavam em greve e foram presas por eles. Hoje, pela falta de registros históricos confiáveis, resta a impressão de que esse episódio não passa de lenda. Antes assim.

A história veio se compondo com as duas greves de costureiras de 1909 a 1910 e 1911, na mesma Nova York, que culminou num incêndio na fábrica de roupas Triangle Shirtwais (em 29 de março de 1911), onde cento e vinte e três mulheres e vinte e três homens morreram vítimas do fogo causado pela falta de segurança das péssimas instalações da indústria. A imagem das operárias se atirando em desespero do oitavo andar serviu para alimentar o mito de 1857.

Em 1910, numa conferência na Dinamarca, é que ficou decidido reverenciar a mulher numa data específica. Em 1970, a marcha de centenas de milhares de mulheres americanas contra a Guerra do Vietnã evocou e deixou o mito do 8 de março de 1857 no ar.

Finalmente em 1975, a ONU consagrou o Dia Internacional da Mulher como data universal. Tenho quase certeza de que estes sessenta e cinco anos de demora desde a conferência de Copenhague foi coisa de homem.

Mesmo os engraçadinhos de plantão – agora distanciados das tragédias que vitimaram as operárias e das lutas das pioneiras – dizendo que o data original era 6 de março, mas terminou em 8 de março porque as mulheres levaram dois dias se arrumando, a culpa de tanto atraso é sempre da nossa lentidão em perceber as coisas. Afinal, elas não demoram se arrumando, estão apenas ficando mais lindas, bando de bobocas insensíveis!

Sim, nós homens somos assim: chatos, pragmáticos, metidos a donos da verdade, a resolver tudo, mas incapazes de perceber um corte, uma nova cor no cabelo. Por isso, prefiro as mulheres. Muito, muito mais! Bonitas, delicadas, práticas, sempre prontas a dar um jeito, a arrumar tudo da melhor maneira, a conciliar o máximo de interesses, a pacificar as beligerâncias masculinas, a amadurecer as infantilidades dos super-homens que andam soltos por aí, a enfeitar tudo com o toque feminino.

Experimente aturar pai, irmão, chefe, namorado, marido, filhos, cunhados, sogra e vai ver rapidinho o que é bom pra tosse. Achou pouco? Tente imaginar o que é a concorrência das outras mulheres observando sem trégua e censurando cabelos, formas, roupas, batons, esmaltes, maquiagem… O império da inveja e das línguas ferinas é coisa de doido!

As mulheres são perfeitas nas suas imperfeições que muitas vezes nos enlouquecem. E o que seria de nós sem elas nesse interessantíssimo conjunto da obra? Nadica de nada. Ficaríamos paralisados por nossas inseguranças masculinas, pois tudo o que queremos são as delicadezas que só elas nos oferecem. Todas elas, cada uma na sua respectiva jurisdição: avós, mães, irmãs e parceiras amorosas.

Portanto, seja Dia Internacional da Mulher ou qualquer dia, tudo que desejo é que elas continuem sendo apenas mulheres. Simples, metidas, calmas, enlouquecidas, esfuziantes, discretas. Lindas, mesmo as que os padrões chamam de feias – e quem diabo inventou os padrões, senão algum homem feio? Experimente adoecer sem uma delas por perto, seu homem feio desgraçado!

Eu cresci numa casa predominantemente feminina e confesso com autoridade: sou um sortudo! Aprendi a rir das pretensões masculinas muito cedo. Somos uns bobos de pensar em igualdade feminina, até porque elas não passam nem perto de nós. Basta colocar a maternidade na roda de conversa e temos que nos recolher à nossa máscula insignificância. Quando conseguiríamos dar à luz um filho e, pela vida inteira – e até depois, na Eternidade –, oferecer a ele o amor eterno e incondicional de mãe?

Falo de cátedra, pois minha mãe está lá por cima há quase doze anos e eu sinto sua presença maternal todos os santos dias desta minha vidinha mundana. Meu pai foi há quase cinquenta, mas eu só “o vejo” de vez em quando. Venha falar de igualdade feminina agora, homem!

Que as mulheres continuem fazendo do mundo um lugar melhor, como apenas elas sabem fazer. Que consigam se libertar de todos os jugos e preconceitos que nosso machismo insiste em cultivar – e que a gente seja homem para ajudar, fazendo nossa parte, estando à altura delas.

Que sigam leves e soltas amando homens e mulheres livremente e tornando, para o nosso próprio bem, o Universo cada vez mais feminino. Amém!

Heraldo Palmeira

Natal (RN), 8 de março de 2019 (e poderia ser qualquer dia)

 

 

Heraldo PalmeiraProdutor Cultural

As opiniões emitidas são de responsabilidade dos colaboradores
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