Nelson Freire

Eu me percebo navegando num rio caudaloso e de grande extensão. E observo claramente que os rios, quando largos e compridos, possuem muitas margens. Por isso penso comigo mesmo: eu estou num rio de muitas margens.

Quando você resolve relatar a história da sua navegação, necessariamente começa de um ponto de partida, da sua primeira margem e a partir daí vai ancorando a embarcação em muitos lugares, traçando o seu rumo e recomeçando a viagem a cada nova saída para outro porto.

E nesse percurso que é contínuo, sujeito ao constante fluxo e refluxo das águas, como também das próprias marés, além do próprio vento, você cruza com muitas e diferentes embarcações, que vão fazendo parte da memória da sua viagem. E ela só tem fim quando você vislumbra, já perto do final do seu roteiro, aquele que será o definitivo e último ancoradouro, localizado definitivamente na última margem do seu próprio rio.

Por isso é que de repente eu me vi como se estivesse novamente ali, no belo jardim da antiga casa, cercado de samambaias por todos os lados. Longas, verdes, caindo dos xaxins como cascatas, exalando o frescor da manhã. Refletindo os raios de sol nas gotas de água fina espargidas em sua direção. Formando no ar um belo arco-íris, bonito aos olhos de quem pudesse ver ali as cores do espectro solar. Como eu naquele momento, extasiado com a beleza do espetáculo, olhos de jovem começando a ver a vida, encantado com o mundo que se descortinava à minha volta.

Uma pedra esperando a lapidação. Iniciando a plantar sonhos, dos quais muitos não vingariam. Talvez por eles não terem sido semeados em terrenos férteis. Mas que valeram a pena assim mesmo. Tanto quanto os que brotaram valeram a semeadura.

Ver de perto as formas e as cores da natureza sempre me fascinou, fazendo-me compreender a síntese da aliança de Deus com a vida. E isso eu aprendi com Dolores, minha mãe. A busca da perfeição e da beleza, quase sempre inatingível. Que faz gerar ideias e utopias, verdades, lendas, mitos e mistérios. A procura do reluzente pote onde brilham o ouro e as pedras preciosas. Mesmo com a possibilidade de ver e não tocar. Tocar e não poder ter. Mas sempre aguçando o sentimento da esperança.

Assim, até hoje continuo a apreciar as samambaias, os jardins e ainda insisto em plantar sonhos. E na incessante caminhada em direção às outras margens do rio, continuo a buscar ao meu redor a visão de novos arco-íris. Arando novas terras e preparando sempre o solo para novas colheitas. Sentindo permanentemente o frescor de novas manhãs e regando as plantas em um novo jardim cada vez mais bonito e mais bem cuidado, com o perfume exalando da terra.

Para que no futuro, que eu espero esteja ainda distante, quando eu definitivamente chegar na ultima margem, possa, num último olhar para traz, sentir a sensação agradável de ter deixado bons frutos. Pois já plantei árvore, tive filhos e escrevi livros, completando a receita chinesa da realização pessoal. E ainda fiz mais. Compus canções e as deixei gravadas em vários CDs para que sejam ouvidas.

Plantei outras arvores, para dar sombra, descanso e alimento a quem delas precisar. E tenho procurado até hoje dar a minha pequena contribuição nos vários caminhos que tenho trilhado. Ora como parte ativa do processo, ora como mero espectador. Mas o que é o mais importante: sempre construindo amizades. Como José Pinto, meu pai, me ensinou durante toda a sua vida.

 Nelson FreireEconomista, Jornalista e Bacharel em Direito

 

Ponto de Vista

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