MISOGINIA E PATRULHAMENTO DE SINAIS POLÍTICOS TROCADOS – Alfredo Bertini

MISOGINIA E PATRULHAMENTO DE SINAIS POLÍTICOS TROCADOS –

O orvalho dos becos bucólicos da cidade de Goiás sempre banhou a notável Cora Coralina de inspirações. Nessa sua simplicidade serena, foi construída uma linha literária de pensamento com a qual me identifico. Em certas ocasiões, julgo pertinente recorrer à poetisa, para ilustrar e enriquecer meus pontos de vista.

Agora mesmo, para entender o sentido da contradição política, que frequentemente assombra nosso cotidiano, fui buscar numa das tantas frases perspicazes de Cora alguma explicação. Nesse rico acervo, destaco que ela disse “aceitar as contradições como lições de vida e que delas se serve, como meio de aprender a viver”. Tamanha serenidade tolerante foi bem o espírito de viver de Cora. Ela tanto fascinou seu público porque foi capaz de ensinar que a vida pode ser mesmo reflexa da sua poesia simples e objetiva. Assim, nesse jeito de ser e escrever de Cora, consigo controlar minha tolerância e aceitar a contradição que há dentro do próprio pensamento de muitos políticos.

Vou bem mais além, do que prediz tal tese. Não obstante meu compromisso com a tolerância, não posso deixar de admitir dois aspectos que me servem para instaurar um debate necessário. Primeiro, com o perdão de Cora, há momentos que a gente precisa impor limites, sobretudo, quando à circunstância assim se justifica. Depois, parece-me ainda mais importante meu gesto de recorrer à forte expressão feminina de Cora, para o que pretendo aqui expor.

Sobre o limite da tolerância é porque a contradição, quando exercida de modo agressivo, tem peso diferenciado, por mais natural que seja admitida a frequência do recurso. Por outro lado, a opção de relevar uma mulher, que só se fez referência literária após os 75 anos de vida, é para mostrar que a resistência para evidenciar o livre pensar representa um exercício de superação, bem maior que qualquer modo de violência. Qualquer mulher pode ser bem maior que qualquer ato absurdo de misoginia que lhe seja dirigido.

Mas, o que de fato me motivou para chegar a esse nível de reação? Na realidade, dias atrás, tomei conhecimento de uma polêmica estéril e descabida, que estava em propagação nas redes sociais. O alvo foi a jovem e competente deputada federal Tabata Amaral. A narrativa de ódio construída pela dopamina digital de alguns, rendidos à incontinência verbal destilada pelo apego extremado às ideologias, foi motivada pela sensatez do seu equilíbrio. Algo de arrepiar, porque na política brasileira de hoje, o mínimo desejo de agir na convergência, de modo isento, leva os extremos a julgarem e condenaram os imparciais como integrantes naturais dos seus conceitos de inferno. Se assistir a um certo artista ratificar uma mensagem de violência física contra a deputada foi a consagração da violência como prática, tão assustador quanto foi verificar as bênçãos nada sagradas de um militante religioso, contrárias à emancipação social e de gênero alcançada por ela. Que contradição! Quanta misoginia! Quanto patrulhamento!

Parece-me que, eventualmente, a régua usada em episódios assim, não só cabe aos extremos da política, como também mensura o mesmo grau de isonomia, no tratamento final destinado aos seus alvos. Isso só ratifica o que aqui defini como título. Afinal, nesse caso de misoginia e patrulhamento, as contradições internas de pensamentos políticos distintos, tornam-se na essência iguais. Trocam-se apenas os sinais. Que nos sirvamos dessa lição e aprendamos a viver, em meio às contradições políticas. Pelo menos, encorajado e sob o decoro do olhar arguto de Cora.

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador. Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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