É inútil, Senhor Redator, procurar no marketing eleitoral efeitos que não são de sua natureza oferecer a fortes ou fracos. Quando o problema não é de tática de comunicação, do fazer isto e aquilo, e esperar o resultado, é inútil insistir. Todo candidato assoma ao palco ou ao ringue, dependendo da natureza do confronto, com sua carga pessoal de grandezas e misérias. E é com ela, exposta a tudo e a todos, que irá contracenar diante da opinião pública como espadachim num combate sem trégua.

É comum nas conversas de bares e restaurantes, diante da presença de um político ou de um jornalista, logo ser pautada a luta dos candidatos em campanha. E esperam – os que militam nesses torneios eleitorais – que exista uma varinha de condão para ser sacada de algum bolso e engendrar um passe de mágica com a solução de última hora. Se fosse fácil, qualquer comunicador ou marqueteiro bastaria armar sua tenda e jogar cartas do tarô com sugestões ao gosto de cada freguês e suas ofertas.

Não é bem assim. Antes de qualquer outra constatação é preciso ter a compreensão básica de que perder e ganhar são tarefas intrínsecas do próprio candidato. Não quer dizer que os artifícios não possam produzir efeitos para revelar ou esconder um anjo ou um demônio. Mas, deles restará sempre aquele mesmo dedo, angelical ou diabólico, que identifica o gigante. É natural que um lado e outro inventem culpas e desculpas, mas o bom e o mal estarão na história dos candidatos diante da platéia.

A construção há de ser precisa para a avalanche não cair sobre aquele que promoveu o abalo sísmico, afinal as pedras rolam, como na canção. É melhor fazê-las cair sobre a cabeça do adversário. Atacar, não deixa de ser um tipo de arte marcial e, por isso mesmo, indispensável no seu requinte. E é essa destreza que muitas vezes falta. Ou, trocando em miúdos os detalhes graúdos dessa questão, todo ataque tem o risco do efeito bumerangue, com as balas voltando-se contra seu próprio atirador.

Estamos vivendo um tempo de absoluta exaustão da imagem pública dos políticos, ainda que se tenha exceções. É essa fadiga de material que se transformou num alvo fácil nos embates de uma luta, sem que se faça disso uma acusação pessoal contra ninguém. Assim como na Justiça, o que não está nos autos não está no mundo, na política também. Mas, se as coisas estão na vida pública de um político, claro que estão no mundo. E, se estão no mundo, não há como tentar escondê-las do olhar.

Em tudo, até nas experiências de laboratórios, há distorções e disfunções que fazem parte do corpo de prova. E é justamente ai, nas provetas dos discursos e atos retóricos, que é possível construir e destruir candidaturas. O marketing não é ciência exata como querem os que dele esperam soluções milagrosas. Os anjos e os demônios estão aí, no céu e no inferno que nós mesmos inventamos. Afinal, e vem de longe, de saber velhíssimo: a maior virtude do Diabo é fazer crer que ele não existe.

Vicente Serejo – Jornalista e Escritor

Ponto de Vista

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