MATRIOSKAS: MAIS QUE BRINQUEDO, IMPORTANTE METÁFORA – Alberto Rostand Lanverly

MATRIOSKAS: MAIS QUE BRINQUEDO, IMPORTANTE METÁFORA –

Outro dia, estive em cemitério da cidade, acompanhando funeral “bem frequentado” por centenas de convivas, que durante todo o tempo, entre si conversavam sobre temas os mais variados.

Após cumprimentar os pranteados, passei a atentar para o ir e vir dos presentes e imaginei sermos os seres viventes, como páginas de um livro com infinitos capítulos, repletos de histórias, sonhos, esperanças e medos, mundos inteiros em constante transformação, sempre carregando o peso ou a leveza de nossas escolhas.

Postado em um dos corredores, enxerguei criaturas que se faziam notar meio à multidão, enquanto outras, bem mais discretas, eram quase invisíveis aos olhos, porém todas essenciais ao contexto do momento de tanta tristeza. Pessoas tão diferentes em comportamento, mas tão iguais em realidade mais ampla, porém que juntas ofereciam energia ao melancólico instante, pois pareciam se complementar.

Naquela ocasião de meditação, envolto por sentimento profundo que reverberava na memória e espirito, recordei de quando estive na terra dos Czares e aprendi serem as “Matrioskas”, os tradicionais artefatos russos, que se encaixam um dentro dos outros formando uma série de tamanhos decrescentes, mais que um brinquedo, mas fascinante metáfora representando as complexidades das relações humanas.

Cada “boneca” tendo sua identidade e traços únicos, mas juntas compondo algo maior e completo, unidas por força invisível, e mesmo com suas diferenças permitindo que todas se acoplem perfeitamente entre si. É nesse ajuste que encontramos a beleza: na capacidade de coexistir, proteger e aprender com semelhantes.

No instante em que a urna baixou a sepultura, pude ter certeza de que cada pessoa é um mosaico de contradições: força e fragilidade, coragem e temor, luz e sombra, que vive e morre. É essa dualidade que nos torna fascinantes, cheios de falhas, mas também de capacidade infinita de amar, perdoar e recomeçar.

Conviver com pessoas é um exercício constante de empatia, paciência e aprendizado. Elas nos inspiram, nos desafiam, nos transformam. E, no fundo, o que nos conecta é a mesma essência: o desejo de ser compreendido, de pertencer e de deixar uma marca, por menor que seja, no coração de alguém.

 

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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