Diógenes Da Cunha Lima

Guardo com carinho duas lições de vida. Uma de um pescador de Pirangi e outra do Maestro Felinto Lúcio. Foi assim.

Eu estava convicto de que a lei de mercado funciona: a minha pretensão urbana e tola acreditava na lógica de supermercado ou de shopping center. Mercadorias tinham um preço que o dinheiro compra. Entretanto, há outras leis comportamentais, de caráter ético, que são superiores às da oferta e da procura. Há ocasiões propícias e momento próprio.

Vi, na praia, peixes se debatendo na areia. Quis comprar. Alguém me disse que deveria falar com o homem de boné vermelho que limpava a rede de arrasto. Apontando, perguntei que peixe era aquele.

O Homem de boné respondeu:

– Curimã. O outro é galo.

– Quero comprar este, para fritar. Vai ser o meu café da manhã.

– Não está na hora.

– Por que? Você não vai vender? Eu quero comprar.

– Mas, não está na hora.

– E o meu café?

– Tome seu café da manhã com biscoito.

O pescador sabe qual é a hora de vender. Quando falei, ainda não era a hora de vender. Era hora de lançar novamente redes, haveria depois distribuição dos peixes. Só então seria a hora da venda. Aprendi a lição.

A outra. Íamos para a solenidade de colação de grau em Caicó. Cinco ou seis carros com professores que compunham a comitiva. Estávamos, na Universidade, fazendo o chamado Projeto Memória. Desejei passar em Carnaúba dos Dantas para visitar o Maestro Felinto Lúcio. No carro, ia pensando que a música sacra de Felinto Lúcio fora tocada na Capela Sixtina, no Vaticano. Encantava-me a idéia de que um homem de Carnaúba dos Dantas compunha música que era tocada em uma capela feita por ordem do Papa Sixto IV (1414-1484) enobrecida com os afrescos dos gênios Perugino e Sandro Botticelli, a cúpula pintada por Miguel Ângelo (1475-1564).

Os sons mágicos de um agricultor do Rio Grande do Norte!

Cheguei à sua casa e pedi para falar com o maestro. Mandou recado:

– Diga ao Reitor que eu vou apanhar umas batatas no rio e se ele puder esperar me dará alegria.

Esperei a contragosto. Acreditava, então, que não podia perder tempo. Nem eu nem os colegas professores, mas esperei. Com pouco, chegou o maestro com uma cuia de batatas-doce e me deu a metade. Agradeci, realmente comovido. Dei a notícia:

– Seu Felinto, estamos editando trinta discos de compositores e intérpretes do Rio Grande do Norte. O pessoal da Escola de Música quer um disco exclusivamente seu e quer registrar todas as suas músicas para os arquivos da Escola.

– Fico muito contente com a idéia. Pode publicar o que quiser. O Mobral já fez um disco, o senhor sabe?

– O senhor me empreste todas as partituras de suas músicas que vão ser copiadas. Fique sem cuidado que o senhor receberá tudo de volta.

– Mas eu não tenho nenhuma! Eu tenho muito trabalho para riscar a pauta com a régua. O pessoal chega aqui e me pede: eu dou. Ainda está semana, chegou aqui um americano – galegão simpático – e eu dei um “patafui” assim.

Ele fez o gesto com os dedos indicador e polegar separados uns quatro centímetros. Fiquei assombrado, irritado mesmo:

– Mas seu Felinto, o safado deste americano vai publicar as suas músicas com o nome dele e ganhar muito dinheiro às suas custas!

– E o que é que tem? Eu quero é que a música toque.

Entendi que o Maestro Felinto Lúcio era grande demais para o meu pequeno entendimento.

Foram duas lições. Sobre tempo e dinheiro, estilo de vida, e dignidade profissional.

Diógenes Da Cunha Lima – Poeta, escritor e presidente da Academia de Letras do RN

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