LEMBRANÇAS – 

Tenho, às vezes, a impressão de que meus leitores (e sei que tenho alguns), podem estar cansando de minha volta ao passado. Faço isso por que o presente está muito complicado, politizado, briguento, incompetente e, em resumo, chato. E do futuro é impossível escrever com certeza, e as incertezas não me animam. Basta as que você já tem durante o dia. E, o passado, muitas vezes, lhe trás agradáveis surpresas no presente.

Sou um sujeito previdente. Pelo menos, assim me considero. Na minha idade, com os problemas de saúde de minha mulher, e o futuro incerto e não sabido, estou nomeando meu filho mais velho como meu curador. Se eu desaparecer, fica ele com a responsabilidade de me substituir, em todos os sentidos, especialmente no apoio à mãe.

Isso gera um processo, como tudo no Brasil, burocrático e demorado. Dentro das exigências legais, há uma que se faz necessária. Mostrar que minha mulher não tem condições de assumir essas responsabilidades. E nesse sentido, tive a agradável satisfação de receber a Dra. Flávia Bezerra, sob cuja Vara corre o processo.

Muito simpática, atenciosa, cordial e competente, buscou comprovar se Ione tinha ou não capacidade de assumir os encargos. Logo chegou à sua decisão, lavrou o despacho respectivo, assinou e eu assinei, junto com o meu advogado, e passamos a conversar.

Perguntou-me se eu conhecia o pai dela, Paulo (Bala) Bezerra, e lhe disse que era meu amigo antigo, de minha geração, cuja perda eu lamentara e cujas cartas e livros nunca deixei de ler. E aí adiantei: mas meu amigo mesmo, com quem eu convivi muitos anos diariamente quando trabalhava com meu pai na Ribeira, foi o seu avô, Álvaro Braz d’Araújo Lima (se você escrevesse sem o apostrofo, não era ele), uma das melhores figuras que conheci. Foi ele que me levou para o Rotary Clube de Natal, em 1953, quando eu tinha 23 anos e lá fiquei por 18, saindo por razões de viagens. Mas os amigos de então continuaram, entre os quais seu avô, cuja convivência foi das mais profícuas. E lhe contei algumas estórias minhas com ele.

Dos papos da segunda feira pela manhã, quando comentávamos o filme do Rio Grande, e durante toda a semana quando tomávamos um cafezinho em frente à sua firma, inicialmente da Travessa Aureliano. Nesses momentos, a inteligência de Lima era evidente. De cinema, entendia como gente grande e, em experiência de vida, era doutor. E aí, para mostrar que realmente conhecia seu avô, contei algumas dessas estórias. Lembrei-lhe que nascera em Puxinanam, perto de Campina Grande, para onde foi adolescente para estudar e trabalhar. Do primeiro emprego em Campina, numa firma exportadora de algodão, onde ganhava por semana. De como comprova à vários vendedores de comidas diversas e que também pagava por semana. De ter saído da firma um sábado pela manhã e não pagou na hora habitual suas compras, e da surpresa quando voltou ao escritório e viu todos sentados e exclamou, surpreso, o que é isso? E o seu patrão respondeu: são os seus fornecedores. Lembrei de como viajara o Brasil inteiro consertando máquinas de escrever.

Comentei ainda de como Limarujo era prolixo. Contava suas histórias com total precisão e eu brincava com ele: Lima, a você não pergunto mais nem as horas, pois antes de responder você conta a história do relógio. E de como Alvamar chegou um dia oito da manhã, na firma dele e ele disse: Alvamar, sente aqui que quero conversar um assunto com você, e a resposta dele: Lima, quero avisar que tenho um compromisso as quatro da tarde.

Finalmente, comentei um livro que a mãe dela teria escrito e não publicado, contando muitas dessas estórias e ela explicou: mamãe juntou as estórias, mas quem as escreveu foi meu avô, numa espécie de diário. Que prometeu me emprestar para que eu o leia. E o vou ler com a maior satisfação, pois vão me lembrar os velhos tempos.

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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