ÍNDIOS DO RN, OS NATIVOS DA TERRA POTIGUAR – Tomislav R. Femenick

ÍNDIOS DO RN, OS NATIVOS DA TERRA POTIGUAR –

Os agrupamentos, tribos ou sociedades indígenas são classificadas por meio de suas respectivas afinidades linguísticas, pela identidade cultural e pela homogeneidade de costumes, porém, é a língua o principal elemento de aglutinação dos diferentes grupos. No Brasil, há duas linguagens básicas principais: a Tupi, que possui sete famílias linguísticas, inclusive a Tupi-Guarani, e a Macro-jê, com cinco outras, entre as quais a família Jê. Afora essas duas, há as línguas Aruak, Karib, Tukâno, Pomo e Guaykuru, que formam grupos independentes.

Antes da chegada dos europeus, durante o período colonial e, ainda, nos anos do Brasil Império, grande parte do Nordeste brasileiro (principalmente a região onde hoje estão os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba) era habitada, predominantemente, por dois grupos de indígenas: os Tupis e os Cariris (kariri).

Os Tupis se dividiam em potiguaras, que habitavam desde a região onde hoje se encontra a cidade de São Luís até as margens do Parnaíba, e das margens do Rio Acaraú, no Ceará, até a cidade de João Pessoa, na Paraíba, e tabajaras, que viviam entre a foz do Rio Paraíba e Itamaracá, em Pernambuco.

Por sua vez, os Cariris eram mais numerosos e ocupavam um território que ia desde o norte do Rio São Francisco, na Bahia, ao Ceará, atravessando Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. A língua comum falada por eles era uma variante tupi-guarani, porém com inúmeros dialetos. Essa divisão linguística também orientava a formação dos vários grupos em que se dividiam. Eram os acenas, arius, areias, caborés, caicós, calabaças, canindés carcarás, carirés, cariris, chocos, curemas, curianês, fuiniês, garanhuns, icós, icosinhos, jandáias, janduís, jenipapos, jucás, monxorós, (moxorós, mossorós ou mouxorós), pacajús, paiacús, paiins, pajeús, panatis, pebas, pegas, quiriris (ou kiriris), quixerês, romarias, sapuiás, sucurus, tararius, tremembés e xakurus. Havia outros mais. Destes, os pegas e os sucurus eram os mais belicosos.

Observe-se que, segundo Sampaio e Carvalho (1992, p. 433), muitos grupos indígenas da região semiárida nordestina receberam a identificação de cariri sem que houvesse nenhuma estrutura metodológica ou epistemológica suportando essa tomada de posição, alguns defendem tal ideia do ponto de vista linguístico ou etnográfico, outros porque o dialeto por eles falado era derivado da língua comum, o tupi-guarani.

Todos esses grupos cariris tinham uma lenda comum, que dizia terem vindo de um grande lago, que estudiosos acreditam que possa ser na Amazônia ou mesmo a Lagoa Maracaibo, situado na região ocidental da Venezuela, ligada por um estreito ao Golfo que leva o nome daquele país. Os homens eram corpulentos, com a pele em tons de marrom, queimada pelo sol, o corpo era desprovido de pelo. Eles possuíam grande força física e usavam o cabelo longo, solto ao vento. Não costumavam usar roupas. As mulheres eram de baixa estatura, tinham estrutura física pequena e corpo rechonchudo, a cor da pele era igual à dos homens e usavam cabelos curtos ou longos. Apesar de andarem nus, os cariris cobriam a genitália. As mulheres adornavam o corpo com penas de aves, folhas e raízes e utilizavam brincos, colares e pulseiras confeccionados com madeira, sementes e outros elementos que encontravam na natureza (FIGUEIREDO, 1939, p. 193 a 196).

Jacob Rabbi, autor de uma crônica relatando a vida e os costumes dos Tapuias (índios arredios), de 1637; Elias Herckman, administrador holandês da capitania da Paraíba, em sua Descrição geral da Capitania da Paraíba, de 1639; Zacharias Wagner, em seu livro Zoobiblion: Livro de Animais do Brasil, de 1641; Joan Nieuhof, em sua Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil, de 1682; Gaspar Barléu, em O Brasil holandês sob o conde Mauricio de Nassau, de 1647; George Maracgrave, em sua História natural do Brasil, de 1648, e o Padre Martinho de Nantes, em sua Relação de uma missão no Rio São Francisco, de 1706, foram os primeiros europeus a descrever os costumes dos índios cariris.

*Publicado originalmente em Tribuna do Norte. Natal, 12 dez. 2021

 

 

 

 

 

 

Tomislav R. Femenick – Historiador – membro do IHGRN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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