HOJE EU TÔ TININDO – Flávia Arruda

HOJE EU TÔ TININDO – 

Já vi, aos quatro cantos, pessoas arrotando carreiras profissionais bem sucedidas, amores exemplares, patrimônios faraônicos, ou seja, uma vida perfeita, a vida dos sonhos. Tudo bem, só não acho que as pessoas devam jogar no ventilador suas intimidades, seus conflitos, suas neuras, a caixa de remédios cheia de antidepressivos, afinal, nada disto é da conta de ninguém. Assim como também acho super dispensável a promoção/potencialização de discursos hipócritas.

É sobre isso, os falsos moralismos discursados numa insistência tórrida em tapar o sol com a peneira. Afinal de contas, têm coisas que estão bem na nossa frente e fazemos questão de não vê-las. Têm mães que preferem acreditar nas mentiras dos filhos, sem ao menos investigar as evidências dos fatos. Essas criaturas preferem ir empurrando com a barriga, talvez com medo de ter um troço diante da verdade. Assim como têm filhos que preferem continuar com a venda nos olhos ao enxergar o que estão fazendo com a pátria amada. Vai saber, não é mesmo?

Como diz o dito popular: “O pior cego é aquele que não quer ver”. O ditado que surgiu em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, nos remete a história do doutor Vicent de Paul D’Argenrt que fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. A cirurgia foi um sucesso para a medicina da época, menos para Angel, o paciente, que, assim que passou a enxergar, ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele “via” era muito melhor que o real. Não contente com o que lhe apareceu as vistas, pediu ao cirurgião que arrancassem seus olhos. Resumindo, o caso acabou no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver.

Agora é que a porca torce o rabo de vez. Vai por mim: há quem diga que essa conversa toda não passa de ignorância, outros até chamam de esperteza. O fato é que, muitos destes aí, preferem ver apenas o que lhes convêm, o que lhes agradam e o que é oportuno.

Assim é a nossa sociedade, fechamos os olhos para aquilo que nos incomoda e não nos acrescenta. Quantas vezes nos fizemos de desentendidos diante de injustiças, crises, conflitos e impunidades? Se não cuidarmos, estaremos trocando alhos por bugalhos, metendo os pés pelas mãos, pois quem vai ao mar avia-se em terra. Afinal, um homem prevenido vale por dois. Cuidemos, pois!

Sem mais delongas, vou ficando por aqui com a esperança de que não sejamos como o passarinho que acompanha morcego, pois este acorda de cabeça para baixo e perde o canto. Uma sugestão: que tal nos regarmos com gotas de personalidade, semeando reflexões que nos livrem da apatia da estupidez?

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora do livro As esquinas da minha existência, flaviarruda71@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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