GRATIDÃO –

Gratidão é a memória do coração. Essa verdade, frase feliz que ficou na memória popular, é do filósofo grego Antístenes (445 a.C. – 365 a.C.). Desde antes, o coração foi visto como sede do amor, da bravura, da bondade, de sentimentos virtuosos. Esse órgão, de bela cor e formato, disputou vitorioso com o estômago e com o fígado como lugar do sentimento, até que a ciência deslocou para o cérebro, para o sistema líbico.

A pessoa grata ganha bem-estar. Maior ainda é o prazer do benfeitor. Forma laços para seu equilíbrio social. A manifestação de agradecimento também ativa a bondade do benfeitor. Já o ingrato não serve para nada. Nem como colega, parceiro, filho, pai, irmão, nem para a sociedade. Observe o desagradecido e neste não encontrará uma boa qualidade de caráter.

Jesus curou dez leprosos escanteados pela sociedade. Pediu-lhes que se mostrassem aos sacerdotes. Apenas um dos curados voltou para agradecer. O Divino Mestre externou estranheza ao perguntar pelos outros nove. Poderíamos concluir, em termos estatísticos, que somente dez por cento são agradecidos. E mais: todos foram curados, mas somente um, o grato, alcançou a salvação.

Tratar de gratidão não é somente tema de santos. O filósofo francês André Comte-Sponville, ateu materialista, prova em seu famoso “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” que gratidão é felicidade, alegria dividida. Ela é “a mais agradável das virtudes”. O poeta-cronista Alex Medeiros, nesta Tribuna, revela sua gratidão à sabedoria do paralítico genial Stephen Hawking, que nos ensina a sermos seres especiais, capazes de entender o universo.

Gratidão vem do latim “gratia”, que significa dádivas. Este favor cria o dever sagrado de demostrar o imprescindível respeito ao outro e à elegância no viver. Quem recebe um favorecimento assume, consigo mesmo, um compromisso de se manifestar grato. A retribuição não é, necessariamente, na mesma proporção do benefício. Mas, há que ser verdadeiro, guardado no fundo do coração.

O benfeitor inteligente sabe a quem favorecer. Conta-se que um monge seguidor de São Francisco encontrou na neve uma cobra prestes a morrer enregelada. Tomado de compaixão pelo animalzinho, aqueceu-o no peito. Do calor, a serpente reviveu e logo fez valer o seu caráter, injetando no frade o seu veneno mortal.

Entre as línguas cultas, nossa língua portuguesa tem expressão única para o agradecimento: obrigado. Aquele que recebeu a vantagem, expressa uma obrigação, o vínculo entre credor e devedor da mercê. O ideal é que essa palavra se transforme em hábito, em saudável costume.

Declaro que estou agradecido a você, leitor destinatário da minha reflexão.

 

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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