GENTE DE VERDADE – Alberto da Hora

GENTE DE VERDADE –

O BARBEIRO CHEFÃO

Chefão era quase folclore na Guarita. Um Fígaro gordo e bonachão, protótipo da profissão. Não dava para entender o bom humor de um homem com a quantidade de filhos que tinha, sustentados com meia dúzia das barbas e cabelos que passavam diariamente pela sua navalha, a tesoura e uma indefectível e onipresente máquina zero. Ajudava o orçamento passando o jogo-do-bicho. Passava e dava os mais absurdos palpites, que os apostadores levavam a sério.

Alguém sonhou que seu gato caiu do telhado e morreu. Que bicho vai dar?

– Vai dar burro, meu filho! Um gato que morre caindo do telhado, só pode ser burro!

– Eu sonhei com Iolanda, filha de seu Paraense. Ela é linda, será que dá borboleta?

– Sonhou com Iolanda, Iolan, lã, meu filho! Qual é o bicho que tem lã? Vai dar carneiro!

Para chegar à barbearia, todo dia cruzava as ruas repetindo uma sentença, em alto e bom som:

– Aproveitem! Vai passando a felicidade…!

E seguia pachorrento, arrastando os pés, a camisa socada nas calças largas e o cinturão grosso apertando a barriga momesca.

Chefão morreu e deve estar no céu. Com seu pule de bicho, a navalha, a tesoura e a máquina zero.

DONA NENEZA

Uma das educadoras da Guarita dos idos de 1950, dona Neneza, sessenta e poucos anos, conhecida professora das primeiras letras, era respeitada e temida. Talvez porque entre os seus métodos e estratégias para ensinar seus alunos, incluía a voz aguda, incisiva e uma palmatória de jacarandá que não alisava o couro de nenhum recalcitrante.

SEU SANTINO

Seu Santino, beirando os oitenta anos, a pele vincada e vermelha, a voz rouca e cansada, tinha como prazer e passatempo, contar histórias.

Lembrava sempre dos passarinhos que infernizavam a vida de um vizinho seu, em Campina Grande. As aves pousavam todos os dias na sua mangueira e o homem, não suportando a algazarra, resolveu passar cola nos galhos, para os bichinhos grudarem as garras e serem capturados. Assim fez, e no dia seguinte, bem cedo, ouviu um grande barulho e chegou ao quintal a tempo de ver os pássaros em revoada. Levavam consigo toda a árvore, arrancada pela força das asas batidas na tentativa de livrarem os pés colados nos galhos.

–  Foi verdade, seu Santino? –

– Me respeite! Eu não sou homem de mentira!…

 

SEU JOÃO E DONA PRETA

Interessantes e curiosos, aqueles vizinhos. Dona Preta – que era branca – ainda bonita, porém semianalfabeta, desgrenhada, um tanto desleixada,  uma dona de casa suburbana sem muito zelo pela sua aparência. Seu João, católico praticante, Congregado Mariano, empertigado, arrumadinho, artificial, usava uma ostensiva impostação vocal, dirigida e estudada só para impressionar. Chegando ou saindo de casa, exibia-se para os vizinhos com adulações, mesuras, rapapés e quando não, uma postura militar. E carregava nas expressões. – Bom dia, bom dia, boa noite, boa noite. Meus respeitos, dona Fulana, como tem passado, seu Fulano.

Certo dia em que recebiam visitas em casa, seu João, ao reclamar de um comportamento da mulher, recebeu desta, sem a menor cerimônia, um sonoro bofetão que o deixou abalado e constrangido por várias semanas. Dona Preta arrependeu-se, ele perdoou e prometeu não mais a humilhar em público.

A mãe de Preta morava com eles e ajudava a cuidar dos três filhos menores. A mais novinha engatinhava nua pela casa, com o piso daqueles tijolos absorventes, de cal. Através da parede-meia era comum ouvir-se diálogos como esse:

– Ô, Preta, a bichinha cagou no chão de novo…!

– Foi muita coisa, mãe?

– Ora, não! Tá o “serrote” …!

 

 

 

 

Alberto da Hora – escritor, cordelista, músico, cantor e regente de corais

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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