GATOS NA LITERATURA –

​Talvez porque os gatos sejam uma obra de arte, como anotou Leonardo da Vinci, os escritores, necessariamente valorizadores da estética, dedicam-lhes poemas, contos, ensaios.

​O gato convive com o ser humano, fascinando-o, há mais de dez mil anos. Desse convívio, nasce uma relação de amizade ou de desamor ou, até mesmo, de adversidade. Enquanto na Cabala judaica ele é proscrito, pelos mulçumanos é querido como animal doméstico por sua limpeza. Na Índia, há estátuas que o simbolizam em beatitude. Muitos já notaram as suas sagacidades e os sinais de sabedoria.

O Prêmio Nobel Pablo Neruda exaltou-o com uma ode, vitorioso na comparação: “O homem quer ser peixe e pássaro, o gato só quer ser gato”. E acrescenta: “Anda sozinho e sabe o que quer”.

Quem ama o gato percebe que ele vive interrogando o mundo e a si mesmo.

​O poeta chileno tem obra póstuma denominada “Libro de las preguntas”. São as suas perplexidades, questiona em forma surreal. Tive a ousadia de dialogar com o Poeta maior, que me indaga: “Quantas perguntas tem um gato?”

Respondi: Sete. Porque cada vida é uma pergunta.

O argentino Jorge Luís Borges vê nele outra espécie de felino: “Tu és sob a lua essa pantera”. Pede também que aceite a mão acariciante ainda que esteja em outro tempo, ou seja, observa o distanciamento temporal.

Edgar Allan Poe, mestre de contos de terror, cria personagem com o gato preto, denominado Pluto. As garras retráteis do animal distendem-se ferindo-o. Entende que seriam garras de bruxa. Vinga-se arrancando-lhe um olho.

Já o gato branco é louvado por Paul Valery, mas nota seus olhos ciumentos das íntimas trevas.

Charles Baudelaire, literariamente tão próximo de Poe, tinha paixão por gatos, mas pede que eles contenham as lâminas das patas. E versejava dizendo que ele mostrava um ar sutil e um perfume de veneno.

O Gato de Botas ainda encanta gerações de meninos muito além das outras obras de Charles Perrault. Na mesma linha, Lewis Carroll em “Alice no País das Maravilhas” apresenta um gato simpático e filosófico.

A independência e a liberdade são notadas como características do bichinho por Theodore de Pauville,: “A vontade e a resolução de ser livre”.

O sisudo Senhor de Montaigne, outro encantado, indaga-se: “Quando me entretenho com a minha gata, quem sabe ela não faz de mim seu passatempo, mais do que eu faço dela”.

No Brasil, Machado de Assis põe a dúvida filosófica: “O gato que nunca leu Kant é, talvez, um animal metafísico”.

Clarice Lispector, possuidora de exótica beleza, compara sua imagem à de um gato arrepiado.

São inumeráveis as apreciações, mas o fato é que o gato continuará a fascinar muitas gerações intelectuais.

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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