Dalton Mello de Andrade

Quem não as têm? Todos nós temos as nossas, e a grande virtude é superá-las e continuar a gozar a vida. E esquecê-las, o mais rápido possível. Algumas são inesquecíveis e, embora superadas, permanecem latentes e de vez em quando ressurgem. Das minhas, duas nunca foram esquecidas. A primeira foi o meu grande anseio de ser aviador. Na FAB ou aviação comercial, então em franco desenvolvimento. A segunda, de ser engenheiro.

Quando terminei o Ginásio, em 1945, pensei em entrar na Aeronáutica, arma que havia sido recém criada. Auge da guerra, aviões por todos os lados, primeiros contingentes da FAB chegando por aqui, o clima de guerra, tiveram, claro, influência nesse meu desejo. Mas, não foi só isso. É que gostava então e gosto até hoje, de aviação.  A posição de minha mãe impediu-me de buscar tais caminhos. Desisti das duas. Sobre a segunda, ouvi de um amigo de meu pai, de quem eu muito gostava e escutava, tentando me consolar: Você já pensou? Hoje é um coisa fantástica mas, em alguns anos, vai se resumir a pegar um avião cheio de gente e levar de uma lugar para outro. Como um “carro de aluguel”. A palavra “taxi” ainda não era usada. Maneira simpática de me consolar.

Naquele tempo, os aviões ainda causavam muito medo. Quando eu falava em ser aviador, minha mãe começava a chorar, dizendo que eu ia morrer, que ela não aceitaria nunca que eu escolhesse esse caminho. As coisas também não eram muito fáceis. As informações eram mínimas, ou nenhuma. Como entrar na escola da FAB, época dos exames, assuntos a estudar, tudo isso era difícil de saber. Essas dificuldades, somadas as lamúrias de minha mãe, impediram-me de prosseguir. Até hoje sinto não ter insistido, mas a frustração foi superada. A lembrança ficou. E, para compensar o objetivo não alcançado, valho-me hoje de um programa de computador, chamado “Flight Simulator”, com o qual vôo inúmeros modelos de avião, desde o simples Cessa ao Boeing 747. É mesmo que voar um avião de verdade, em “carne e osso”.

 Minha outra grande frustração foi não ter me formado em engenharia. Não era mau aluno de Matemática, gostava de Ciências, e tentei fazer esse curso. Sem escolas por aqui, tinha que sair de Natal. Resolvi ir para o Rio, e fui, para fazer o vestibular. Com poucas informações sobre datas de exames, matérias do vestibular, meio às cegas, peguei um “Ita do norte” que passava por aqui e levava uns dez dias de viagem. Houve um atraso e quando cheguei no Rio, me instalei, e fui a Escola de Engenharia, a data de inscrição já havia encerrado. Fiquei no Rio, para fazer o exame depois, mas a vida foi mais caprichosa e mudou o meu roteiro. Frustração também superada. Segui outros caminhos, dos quais não me arrependo. Ficou a lembrança.

Dalton Mello de Andrade – Ex Secretario de Educação do RN

 

 

Ponto de Vista

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