FERVE O VULCÃO POLÍTICO –
Entra em ebulição a política brasileira, com presidente Bolsonaro reformando o seu Ministério, ao aceitar o “presidencialismo de coalizão”, que tanto condenou.
De agora por diante, o Executivo depende do apoio de vários partidos, em suas iniciativas.
A maior surpresa foi a demissão do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva.
A propósito, o jornalista Lauro Jardim interpretou o significado das palavras do general demitido, de que as forças armadas são instituições de estado. A frase é tida como “cirúrgica”.
Conclui o jornalista:
“A partir das próximas horas seu sentido exato será destrinchado com os detalhes que a história dos últimos dois anos merece”. Para o bom entendedor, meia palavra basta!
Por mais que os interlocutores oficiais ponham “panos mornos”, abre-se fissura político-militar.
O general Braga Neto, indicado para a Defesa, encontrou-se ontem com os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, levando a ordem presidencial de dispensá-los. Sabe-se que é legal o ato presidencial da demissão.
Porém, não é normal, por tratar-se da primeira vez em que três comandantes das Forças Armadas são afastados por discordância com o presidente da República.
Essa é a maior crise na área, desde a demissão do então ministro do Exército Sylvio Frota, em 1977.
Aliás, por trás dos últimos episódios atuais, parece estar a admiração do presidente Bolsonaro, a sua ala ideológica e militar, pelo general linha-dura Sylvio Frota, que tentou depor o presidente Geisel, em 1977, acusando-o de complacência com a “infiltração comunista” na imprensa e no próprio governo.
Indagações pairam no ar sobre quais serão as consequências políticas e militares?
Quem conhece o Congresso Nacional, sabe que, caso a reforma não seja completada, sobretudo com a saída do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, a tendência será o “centrão” deixar Bolsonaro, como já fizeram no passado, ao largar o PT.
A impressão é que os atos de Bolsonaro não conduzirão a desejada “união nacional”.
O presidente monta gabinete para confrontar-se com a tentativa de impeachment, impor as medidas sanitárias que defende e enfrentar a oposição.
Não é segredo, que a deterioração da relação do Planalto com o Ministro da Defesa, ocorreu, quando Bolsonaro decidiu aplicar medidas de exceção, como o estado de defesa, em unidades da Federação, que aplicam lockdown contra a pandemia.
Os integrantes do alto comando se recusaram a fazê-lo, mesmo diante da alegação do presidente, de que haveria pouco reconhecimento das Forças Armadas, após ele conceder reajustes salariais, aprovar a reforma previdenciária e administrativa militar, além de garantir investimentos nos programas bélicos.
Por justiça, não se pode omitir erros crassos da oposição, acirrando ânimos, após a decisão do STF favorável ao ex-presidente Lula, ainda pendente de julgamento final.
Não se justifica a euforia de uma vitória antecipada em 2022 dos adversários de Bolsonaro.
O Mestre Cascudo, na sua obra “Coisas que o povo diz”, transcreveu versos do trovador pernambucano Adelmar Tavares: “A verdade popular/ Nem sempre ao sábio condiz, / Mas há verdade serena/ Nas coisas que o povo diz.”.
No caso específico, cabe citar as verdades populares: “Devagar com o andor, que o santo é de barro”; ou “”Não vá com muita sede ao pote! ”.
Percebe-se o notório uso político da pandemia.
“Negacionistas” são aqueles que negam a ciência, no combate ao vírus e privilegiam a economia.
Mas, também surgiram outros “negacionistas”, buscando transformar os conflitos em estratégias políticas para desestabilizar o país e obter ganhos eleitorais.
Uns e outros precisam ser contidos, neste momento dramático que vivemos.
Está faltando, Lula e outros oposicionistas, demonstrarem crença na “união nacional”, como único meio de superar riscos institucionais e vencer a Covid 19.
Até hoje, qual deles fez sugestões nesse sentido, ou apresentou plano político-cientifico confiável?
O Brasil não suporta transformar-se em vulcão político, a expelir lavas, que contribuirão para a instabilidade do país.
Não se trata de condescendência, ou jogar erros para debaixo do tapete, ocorridos de lado a lado pelos grupos em disputa.
O momento exige bom senso e espírito público.
É o mínimo que a Nação exige dos seus dirigentes e líderes.
Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal, professor de direito constitucional da UFRN e advogado
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